
24 de dezembro de 2008
Ignacy Sachs: Amazônia, laboratório das biocivilizações do futuro

17 de dezembro de 2008
Amazônia: desafio brasileiro do século XXI
15 de dezembro de 2008
Sobre padeiros, pedreiros e cientistas
Quando lemos "Legal, mas pra que serve isso?", texto de Aline Lopes,
nos identificamos imediatamente. É recorrente para nós pesquisadores (ou aspirantes a) ao escrever um projeto, ou descrever resultados de um trabalho, ou ler um artigo, e em vários outros momentos, parar e fazer exatamente este mesmo questionamento: Tá, mas pra que serve isso??? É um questionamento importante, e se não temos a capacidade de fazê-lo estamos fadados ao enfado. Entendemos que cada organismo vivo tem seu papel no funcionamento do planeta, nem que seja acumular um 'carbonozinho' por um tempo (de segundos a centenas de anos) e depois repassá-lo a outros componentes do ciclo. Isto não justifica a mediocridade, claro, mas o que queremos dizer é que existem padeiros, pedreiros e cientistas.
Desde que o mundo é mundo cada um tem uma função a desempenhar. Nas longíquas aulas de história aprendemos que esses papéis vão mudando conforme evoluem as sociedades. Nas sociedades coletoras-caçadoras alguns eram responsáv
eis pela caça e outros pela coleta de frutos. Na idade média eram tempos de reis, senhores feudais, vassalos, servos... e assim vai... O tempo passou, ainda temos que ter uma função a desempenhar, mas o papel social do que fazemos não é mais tão claro quanto era na idade da pedra. Aqui, alguns de vocês devem estar pensando que estamos equivocados, afinal é muito clara a função social de um padeiro, de um pedreiro. Mas para que exatamente serve o trabalho de um físico, historiador, biólogo ou de qualquer outro cientista? É fácil pensar no 'porquê' de profissões que estão diretamente relacionadas com nossas necessidades cotidianas, em profissionais que quando não estão ali sua ausência é imediatamente sentida. Compartilhamos aqui lembranças das greves intermináveis da época da faculdade, daquelas que só acabavam quando comprometiam o vestibular, e de quando pensávamos que essas greves não seriam tão longas se fossem lixeiros (ou padeiros!) e não professores que estivessem parados. Nossas necessidades cotidianas são necessidades concretas e muito distantes das questões abstratas dos cientistas.
epler no século XVII para a sua atividade, é pouco provável que ele faça um discurso sobre a influência desse trabalho para a formulação de lei da gravitação universal por Newton e que sem aquilo as balanças digitais não seriam possíveis e bla-bla-bla... Onde queremos chegar com isso é: muitas vezes quem não é cientista não entende a ciência como parte do mundo, assim como os cientistas se esquecem que são parte da sociedade, como bem lembrou o Daniel Munari (o Mindu) na última reunião dos jovens cientistas da ULE. Cada um vive bem no seu mundinho e quando cientistas precisam do resto da sociedade ou quando o resto da sociedade precisa dos cientistas é que nos damos conta que falamos línguas completamente diferentes. Mas por que isso acontece? Quando foi que nos separamos do resto do mundo?
complexo de questionamentos profundos, análises estatísticas mirabolantes e o tempo se encarrega de deixar alguns de nós completamente alienados. A alienação é importante para a concentração e só por meio da concentração é que conseguimos lidar com problemas complexos que fazem parte do nosso cotidiano. Mas nem sempre voltamos desse mundo 'imaginário'. Muitas vezes não conseguimos resgatar nosso objetivo inicial (aplicado ou não) ou traduzi-lo para os demais interessados. Mas isso também não é tão fácil assim como parece.
[thaise.emilio@gmail.com & espiritosantohm@gmail.com]
Guia de Samambaias e Licófitas da REBIO Uatumã – Amazônia Central

13 de dezembro de 2008
Atualização num mar de informação

12 de dezembro de 2008
Guia de Lagartos da Reserva Ducke (Amazônia Central)

Adquira o Livro Vermelho da fauna brasileira. É de graça!!
O Ministério do Meio Ambiente disponibilizou o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção em versão PDF para download. São dois volumes contendo contextualizações gerais para cada grupo taxonômico, distribuição geográfica de cada espécie com mapas, além de registros em unidades de conservação, principais ameaças, estratégias de conservação, referências bibliográficas, e até a indicação de especialistas e suas respectivas instituições. Vale a pena conferir!! O único problema é que cada capítulo tem que ser baixado independentemente. Para baixar, acesse o link, clique em "Fauna Ameaçada", depois em "Publicação - Livro Vermelho" no canto esquerdo da tela. Aproveitem!!Abraço a todos, e aproveitando, FELIZ NATAL!!!!
6 de dezembro de 2008
PNUMA lança Atlas sobre carbono e biodiversidade em Poznan




5 de dezembro de 2008
Políticas públicas (ou privadas?) para o meio ambiente
A ausência de discussão razoável sobre a reformulação do Código Florestal traz à tona o descaso do Ministério da Agricultura com a manutenção dos fluxos de energia que sustentam a mesma produtividade agrícola que defendem a todo custo. A visão parcial desse ministério é a demonstração de uma das características compartilhadas pela grande maioria dos seres humanos (incluindo eu): cada um defende o seu e os seus. Pena que os caras sejam tão nó cegos a ponto de não perceberem o tiro nó pé que estão dando ao negligenciar os cuidados mínimos com o meio ambiente.Para entender melhor, visite o site Amazonia.org.br.
Legal, mas pra que serve isso?
Quem nunca ouviu essa pergunta? De uma forma ou de outra, em algum dia, você vai se deparar com ela. E desse dia em diante, pode ter certeza: ela vai fazer parte do seu cotidiano. Isso porque além de aparecer rotineiramente em relatórios, projetos, dissertações ou teses, com o nome de “justificativa”, ela pode surgir de repente em qualquer lugar que você esteja.4 de dezembro de 2008
Guia de Sapos da Reserva Ducke (Amazônia Central): nova versão com vídeos dos cantos

3 de dezembro de 2008
Quiero ser tortilla: animação sobre biocombustíveis no México

A afirmação está no vídeo “Quiero ser Tortilla” (em espanhol), que está circulando na internet, sobre a competição entre agrocombustíveis e alimentação. Vale a pena assistir.
Os mexicanos sofreram com o aumento no preço do milho, base de sua alimentação, que está na mira das usinas produtoras de etanol nos Estados Unidos. Enquanto isso, discute-se por aqui como a produção de biodiesel e de etanol de cana pode causar o mesmo problema, considerando a disputa por terra para produção de gêneros alimentícios.
O vídeo é uma realização dos Veterinários sem Fronteiras, uma organização não-governamental que atua para melhorar a qualidade de vida das populações desfavorecidas. Possui projetos com o objetivo de desenvolver a produtividade animal em comunidades rurais.
Macroecologia: entrevista com Miguel Ángel Rodríguez (Univ. de Alcalá, Espanha)
O que a Espanha tem? Além das touradas e do clássico “Barça e Real” a terra de Cervantes também produz Ecologia de primeira linha. O professor Miguel Ángel Rodríguez do Departamento de Ecologia da Universidade de Alcalá esteve no Brasil realizando uma série de trabalhos no Laboratório de Ecologia Teórica e Síntese – LETS da Universidade Federal de Goiás, onde gentilmente concedeu esta entrevista ao doutorando do NUPELIA (UEM- Maringá), Dilermando Pereira Lima Júnior. De forma muito descontraída, porém profunda, Miguel Rodríguez contou sobre sua formação, suas principais linhas de pesquisa, apontou tendências na Ecologia no século 21, terminando a entrevista com dicas para jovens ecólogos. Confira.Quando começou a se interessar por Macroecologia? Meu interesse por Macroecologia surgiu durante a tese de doutorado. Sempre me chamou a atenção a existência de muitos dados acumulados sobre o assunto e como trabalhava com vegetação, me interessava os dados fitossociológicos levantados pelos botânicos. Quando estava terminando meu doutorado, pensei que das meta-análises de muitos trabalhos poderiam surgir padrões interessantes. Daí fui fazer meu segundo doutorado no Laboratório de Bradford Hawkins, onde já havia uma base de dados preparada com essas informações, mas o maior interesse com esses tipos de questões aumentou quando o Brad também começou a se interessar pelo campo da Biogeografia, se tornando meu principal campo de investigação nos últimos anos.
Você acredita realmente nos padrões Macroecológicos como importantes fatores atuantes na estruturação de comunidades locais? Uma vez que muitos artigos mostram uma baixa correlação entre a diversidade de variáveis de grandes escalas espaciais. Sim, eu acredito nos padrões. Quando observamos os mapas de riqueza em escalas continentais, creio que esses mapas refletem realidades biológicas. É certo que os mesmos são criticados por mostrarem uma distribuição de espécies que representam mais hipóteses de distribuição do que a distribuição real das espécies, porém estudos mostram que esses mapas são boas explicações da distribuição. Quando observamos os mapas de tamanho corporal das espécies e outros padrões macroecológicos, a mim parecem que esses mapas refletem realidades biológicas. Outra coisa são as análises que fazemos dos dados, que nos mostram correlações entre variáveis climáticas e históricas e nossas interpretações. Se as nossas interpretações são corretas ou não, isso está para ser visto. O fato é que algumas variáveis explicam grande parte da variância, de aspectos como riqueza de espécies em escalas continentais e globais. Podemos encontrar variáveis como evapotranspiração que descreve mais de 70 % de variação da riqueza de espécies de diferentes grupos taxonômicos. Porém, se essa variação é uma resposta biológica dos organismos à quantidade de energia e água, ou se são meras covariações, que escondem outros mecanismos por trás destes padrões, são questões ainda por responder. Na verdade é a grande pergunta. Encontramos correlações com variáveis ambientais, mas correlações não implicam em um mecanismo causal.Sabemos que nosso planeta hoje se encontra numa crise ambiental, com enormes prejuízos à diversidade biológica. Em se tratando de conservação você acha que a Macroecologia pode contribuir com a Biologia da Conservação ou são áreas distintas de pesquisa? Sim. Por um lado o estudo da biogeografia nos ajuda a identificar pontos no globo com grande riqueza de espécies (os hotspots de biodiversidade), com grande número de espécies endêmicas e/ou espécies raras. Claro que tudo isso é uma informação útil para a biologia da conservação. Por outro lado, a macroecologia pode evidenciar como e quais os mecanismos que estão afetando a distribuição das espécies em grandes escalas, por exemplo, avaliando o impacto humano nestas escalas. Nos últimos duzentos anos temos modificado o planeta como nunca antes na história. Isto sem dúvida tem afetado os padrões biogeográficos, portanto, estudos que estão focados em estabelecer até que ponto o impacto humano influencia os gradientes de riqueza de espécies podem ser muito importantes para medidas de conservação.
Quais são os motivos que lhe trazem ao Brasil? O principal motivo é que por aqui há um grupo de pesquisadores como José Alexandre Diniz Filho, Luis Maurício Bini e Paulo De Marco Junior excepcionalmente bom no campo da Macroecologia, com uma capacidade de análise que chama atenção e é reconhecido por pesquisadores da área em todo o mundo. Vir ao Brasil, para mim é uma oportunidade para aprender e fazer análises mais refinadas. E não digo isso por estar no Brasil…

Qual é a sua dica para jovens ecólogos e pós-graduandos que estão se formando agora e ainda têm poucos artigos publicados? Diria duas coisas… Primeiro publique tudo que podem. Nessa primeira fase de formação de mestrado e doutorado o pesquisador tem que estar ciente que está aprendendo. É importante fazer bons trabalhos, acabá-los e continuar trabalhando. Se você está investigando perguntas importantes, ótimo, mas o mais importante nessa fase é aprender. Dessa forma, fazer trabalhos mais clássicos (ou “conservadores”) e publicá-los é importante. Com avançar da carreira creio que tem que haver uma tendência em prezar a qualidade. É normal que no inicio da carreira o estudante publique muito, mas com maturidade diminua o número de publicações e invista em artigos melhores, mais bem acabados e de maior calibre científico. Com o tempo não importa tanto o número de artigos, mas as questões que se investiga. Resumindo: durante o mestrado e doutorado tente publicar muito em boas revistas internacionais e mais adiante se livrar da obsessão de número artigos e se concentre em idéias importantes para publicar em revistas de ponta.
2 de dezembro de 2008
Mudanças Climáticas: novo Portal entra no ar
Nesta segunda-feira 1, quando tem início em Poznan, na Polônia, a 14ª Conferência das Partes (COP-14) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), entra no ar o Portal Mudanças Climáticas, verdadeira enciclopédia ecológica destinada exclusivamente ao tema das mudanças climáticas. A iniciativa é da Embaixada do Reino Unido no Brasil, do Conselho Britânico e da Agência de Notícia dos Direitos da Infância - ANDI.Sempre atualizado e com material em Português, o portal vem enriquecer e facilitar a cobertura do tema pela imprensa, assim como a realização de pesquisas e trabalhos tanto acadêmicos quanto de outros níveis de ensino. Trata o assunto 'mudanças climáticas' de forma clara, acessível e abrangente. Oferece informações e reflexões contextualizadas, de maneira que o fenômeno apresente-se como de fato é: uma questão transversal, ou seja, que afeta todos os setores da sociedade. Para isso, conta com recursos extras, como vídeos, gravações de depoimentos, fotografias, entrevistas e artigos livres de copyright, desde que citadas as fontes. Especialmente aos jornalistas, devem interessar o glossário de termos da área e, sobretudo, o banco de pautas.
Alguns exemplos do vasto cardápio do portal:
- Conceitos e definições
- A agenda do clima
- Busca de alternativas
- Ciência do clima
- Causas, impactos, soluções
- Críticas e contrapontos
- Políticas públicas
- Clima e imprensa
"Esse trabalho é o coroamento de uma iniciativa que o governo britânico e a ANDI vêm desenvolvendo já há algum tempo, que consiste em estimular a imprensa a cobrir mais e melhor o tema das mudanças climáticas. Antes do portal, lançamos uma análise de mídia que apontava o estado da arte da cobertura jornalística nessa área, e o site vem reforçar a necessidade, identificada na pesquisa, de uma melhor contextualização do tema, uma visão de conjunto que permita à sociedade construir respostas efetivas a esse fenômeno planetário", observa o diretor executivo da ANDI, Veet Vivarta.
Mini-oficina com o pesquisador José Alexandre Diniz Filho (UFG)
Nesta "mini-oficina", ele falou rapidamente sobre o problema de autocorrelação espacial em ecologia, explicando como dados autocorrelacionados podem gerar modelos e conclusões precipitadas, possivelmente errôneas. Após apontar os principais problemas, ele fez uma rápida discussão sobre os principais métodos utilizados para tratar a autocorrelação espacial.
Os métodos mais discutidos foram os "filtros espaciais" e os "modelos autorregressivos simultâneos". Os filtros espaciais são gerados a partir de uma matriz de conectividade, da qual se extrai os autovetores que são usados como filtros espaciais. Já os modelos autorregressivos adicionam no modelo um termo autorregressivo que é capaz de capturar o efeito espacial. Em ambos métodos a questão que mais gera duvidas é em que parte do modelo a parte espacial da análise irá atuar.
O Dr. Diniz Filho mostrou que existem basicamente 3 formas de inserir o espaço no modelo. A primeira forma visa remover a autocorrelação na variável resposta, contudo o espaço começa a se confundir com o ambiente. Uma segunda forma é inserir o espaço tanto na variável resposta quanto na variável preditora (ambiental). Por fim, a terceira forma visa atuar diretamente nos resíduos do modelo não espacial, diminuindo a interferência do espaço no componente ambiental.
Existe um grande problema conceitual e estatístico nas análises ecológicas e, para um bom entendimento dos processos ecológicos que geram a distribuição de espécies, é preciso saber como separar efeitos ambientais dos efeitos espaciais. A visita do Dr. Diniz Filho foi importante porque proporcionou uma orientação conceitual sobre os projetos dos alunos do Inpa, favorecendo intercâmbio de experiências entre pesquisadores locais e um dos grupos mais expressivos em Macroecologia no Brasil.
Para conhecer mais sobre o grupo de trabalho do pesquisador José Alexandre Diniz Filho, visite: http://www.ecoevol.ufg.br/laboratorios/lets/
1 de dezembro de 2008
Fernando Fernandez: A tal da sustentabilidade
Poucas palavras, hoje em dia, estão tão na moda quanto sustentabilidade. Ela é repetida à exaustão - seja nos jornais, na TV ou na internet; seja nos discursos dos políticos ou nos anúncios das mais variadas empresas. Pode-se dizer que “sustentabilidade” é quase um mantra dos nossos tempos pós-modernos.
Podemos traçar a origem da popularidade da palavra “sustentabilidade” ao conceito de “desenvolvimento sustentável”, definido formalmente pela primeira vez no Relatório Brundtland em 1987 como “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias”. Esse conceito tornou-se imensamente popular nas últimas décadas, como a panacéia que permitiria conciliar o desenvolvimento com a necessidade cada vez mais óbvia de não destruir a própria base de recursos da qual o desenvolvimento dependia. A palavra sustentabilidade, embutida no conceito, tomou então conta da mídia. Toda hora fala-se que esse ou aquele recurso natural está sendo explorado de forma sustentável.À primeira vista podemos pensar que isso é ótimo. Devemos então estar cercados de práticas de exploração sustentável de recursos naturais, permitindo manter os tais recursos para as gerações futuras. Ah, sim, claro, conservando a natureza também.
Será?
Nos últimos anos, vários pesquisadores têm estudado a questão de se algumas explorações de recursos naturais apresentadas como sustentáveis de fato o são. Um deles foi o paraense Carlos Peres, que com vários colaboradores estudou se era ou não sustentável a exploração da castanha-do-Pará. Na natureza, esses frutos da castanheira (Bertholletia excelsa) são abertos por cutias. As cutias muitas vezes enterram as sementes para consumi-las depois, mas são uns roedores desmemoriados que muitas vezes esquecem onde enterraram as sementes, que então germinam. Hoje o florescente mercado internacional para as chamadas “Brazil nuts” tem deixado pouca coisa para as cutias. A exploração da castanha-do-Pará por populações locais na Amazônia tem sido frequentemente apontada como um exemplo de exploração sustentável – uma das “jóias da coroa” do governo Lula no que se refere ao “uso sustentável” de recursos naturais.
O estudo de Peres e seus colegas foi publicado na Science, a mais prestigiosa revista científica do Mundo (Science, 302: 2112-2114, 2003). Foi um estudo muito amplo. Em nada menos que vinte e duas localidades espalhadas pela Amazônia - a maioria delas no Brasil, mais algumas no Peru e na Bolívia - os autores mediram todas as castanheiras maiores que 10 cm DAP (Diâmetro à Altura do Peito). As árvores jovens, ou seja, as que ainda não produzem frutos, são aquelas com DAP menor que 60 cm. É, castanheiras são árvores bem grandes. O estudo comparou a freqüência de árvores jovens em localidades com diferentes antiguidades e intensidades de exploração.Os resultados foram claros e perturbadores. A proporção de árvores jovens variava de 31 a 76% nas cinco localidades onde não havia exploração de castanhas-do-Pará. Caía para 10,6 a 47% nas dez localidades pouco exploradas, e para 3,8 a 25% nas cinco localidades moderadamente exploradas. Já nas três localidades persistentemente exploradas, a proporção de castanheiras jovens caía para ínfimos 0,7 a 1,6% - dezenas de vezes mais baixa que a proporção normal. Pior, em uma dessas três localidades as poucas castanheiras jovens eram rebrotamentos de árvores quebradas por ventos, as quais não se reproduzem mais. Ou seja, as populações exploradas tendem a ser populações velhas, com poucas árvores jovens.
A conclusão de Peres e seus colaboradores resume tudo com perfeição: “a mensagem clara é que as práticas de coleta de castanha-do-Pará não são sustentáveis a longo prazo”. Por algumas décadas, a produção pode até ser mantida porque as castanheiras vivem e frutificam por muito tempo. Mas depois que as árvores adultas de hoje morrerem nas áreas exploradas, não há quase árvores jovens vindo depois para substituí-las. Ou seja, a segunda e tranquilizadora parte da definição de sustentabilidade, “sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias [necessidades]” acabava de ir para o espaço.
Num estudo mais recente, também na Amazônia, Plinio Sist e Fabrício Nascimento, dois pesquisadores da EMBRAPA, analisaram a sustentabilidade da chamada “exploração madeireira de baixo impacto” (“reduced impact logging” ou RIL) (Forest Ecology and Management, 243: 199-209, 2007). RIL é uma técnica pela qual apenas as árvores acima de um certo diâmetro, das espécies comerciais, são retiradas, deixando as demais árvores no lugar. A área estudada, na Fazenda Rio Capim, em Paragominas (Pará), era explorada pelo grupo CIKEL – Brasil Verde. Um detalhe muitíssimo importante, a “sustentabilidade” da exploração na Fazenda Rio Capim é certificada pelo FSC (“Forest Stewardship Council”), a mais tradicional e exigente entidade internacional que fornece selos verdes para companhias de exploração madeireira no Mundo.
Sist e Nascimento fizeram um planejamento experimental cuidadoso, e coletaram uma imensa quantidade de dados. Antes do corte das árvores, utilizaram duas linhas de amostragem, cada uma incluindo nove áreas amostrais de 100 x 100 metros cada. Em cada área, identificaram e mediram nada menos que todas as árvores com DAP igual ou maior que 20 cm – um trabalho hercúleo. Depois da extração das árvores comerciais, verificaram quantas das restantes árvores da floresta haviam sido mortas ou danificadas por esse processo. Além disso, usando dados sobre o crescimento das árvores, calcularam quanto tempo as árvores comerciais levariam para repor o estoque que havia sido retirado. Um ciclo de 30 anos – ou seja, 30 anos entre extrações sucessivas de madeira da mesma área – é o recomendado por lei na Amazônia brasileira.
Novamente os resultados foram perturbadores. Sist e Nascimento estimaram que apenas metade do estoque das madeiras comerciais poderia ser reposto após o ciclo “legal” de 30 anos. Ou seja, novamente a exploração dita sustentável na verdade não é sustentável, pela própria definição. Pior que isso, é preciso olhar também a questão da conservação ou não da floresta como um todo. Os dois pesquisadores encontraram que em média nada menos que 13,9% das árvores restantes de cada área haviam sido mortas, mais 6,7% danificadas com diferentes graus de severidade, durante a extração das árvores comerciais. A abertura do dossel – ou seja, as “falhas” na continuidade do topo da floresta – tinha duplicado a triplicado. Em resumo, trata-se de uma exploração de recursos que não permite manter os níveis desses recursos para as gerações futuras, e além disso causa um dano considerável à floresta. Olhe bem que a CIKEL tem sido considerada um dos melhores exemplos de bom manejo florestal - imagine as outras companhias. Sist e Nascimento foram ainda mais além e apontaram que a não-sustentabilidade que eles verificaram não era em absoluto um resultado isolado, mas sim similar ao de outros estudos desenvolvidos no sudeste da Ásia.Os estudos que discuti são apenas dois, e pode-se perguntar se são apenas exceções a uma suposta regra geral de explorações de fato sustentáveis. Pode até ser, mas não tenho muita esperança disso. De qualquer forma, eles mostram, no mínimo, que alguns dos casos apontados como sendo de exploração sustentável na verdade não o são.
Desculpe, meu caro leitor, se bombardeei você com tantos resultados de demografia. Você tem razão, demografia – o estudo das populações – pode ser um pouco árido às vezes. Tentei colocar tão poucos tediosos números quanto consegui. Mas acredite, os que coloquei foram por uma boa causa. Foram para mostrar que aquilo que um tecnocrata chama de “recurso natural” eu chamo de “população biológica”. Qualquer uso de uma população de animais ou de plantas só pode ser sustentável se as entradas de indivíduos para a população (i.e., nascimentos e imigração) continuarem compensando, em longo prazo, as saídas (i.e. mortes e emigração). Como saber isso? Estudando a população em questão. Simples assim. Se uma dada exploração é sustentável ou não, isso é uma questão técnico-científica, fundamentalmente demográfica, que precisa ser respondida com a aplicação de boa ciência. Tudo isso deveria ser o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas no nosso Mundo de hoje, onde esse assunto tem sido tão abusado pela ideologia e pela propaganda, às vezes é necessário dizer o óbvio.
Você pode ter notado que tanto o estudo de Peres e colaboradores como o de Sist e Nascimento foram a posteriori, ou seja, visaram analisar a sustentabilidade ou não de uma exploração que já existia e que, em ambos os casos, era dita sustentável. É claro que seria desejável ter estudos a priori, ou seja, testar se a exploração de um dado recurso natural é de fato sustentável antes de autorizá-la. Onde estão os estudos a priori? Pode até haver alguns, mas são raríssimos. Noventa e seis por cento das reservas extrativistas brasileiras não têm sequer plano de manejo, quanto mais avaliação de sustentabilidade. Ora, então, a pergunta que não quer calar é: se quase não há estudos a priori, por que a gente ouve falar que tantas atividades são sustentáveis?
Por uma razão muito simples: porque na grande maioria das vezes a palavra sustentabilidade não tem sido usada em seu sentido real. Quando um empresário diz que sua empresa é sustentável, na maioria das vezes o que ele realmente está dizendo é “estou tendo cuidado com as questões ambientais”. Quando alguém de uma associação extrativista diz que uma exploração é sustentável, de modo geral o que ele realmente está dizendo é que “nossa atividade é menos destrutiva que outros usos da terra que poderiam ser feitos aqui”. Tanto uma afirmação como a outra podem muito bem estar corretas - ou não, dependendo do caso. Mas nem uma coisa nem outra quer dizer, necessariamente, que as atividades em questão sejam sustentáveis. Isso vale para ambos os sentidos que mencionei aqui – tanto o sentido de fornecer recursos para as gerações futuras, como o sentido da demografia da própria espécie explorada.
Tomando por exemplo a própria castanha-do-Pará, pode ser verdade que explorar castanheiras tenha menos impacto que derrubar tudo e criar bois, mas nem por isso a exploração da castanha será sustentável. Caso não seja, isso trará a ruína não só da população biológica explorada, mas também das populações humanas estimuladas a depender de um recurso que não está conseguindo se renovar. Sustentabilidade ilusória não é bom para ninguém, muito menos para quem depende dela. Já ouvi o argumento “Ah, sim, mas até lá eles já vão estar usando outro recurso”. Isso, claro, depois da população explorada originalmente ter sido dizimada. Ei, peraí, que diabo de sustentabilidade é essa?
A demografia, ou seja, o estudo das populações naturais, é um dos temas centrais da ciência fascinante, mas tão mal compreendida, que é a ecologia. A ecologia é a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com seu ambiente. Tem sido confundida com uma de suas aplicações, ou seja, os problemas ambientais. Mas há hoje uma forte ecologia acadêmica no Brasil, uma das melhores do Mundo, com muitos excelentes profissionais. Por que raramente se chama algum deles para avaliar a verdadeira sustentabilidade de alguma coisa, antes de se sair dizendo por aí que é sustentável? De um ponto de vista otimista, talvez seja por desconhecimento de que há por aí gente capacitada a avaliar essas coisas. De um ponto de vista mais pessimista, também pode ser porque quem diz, no fundo, muitas vezes não está interessado na resposta.
Isso pode parecer um detalhe de pouca importância para a conservação. Mas não é. Muito da popularidade da palavra sustentabilidade vem do fato de que ela soa tão bem. Antes de mais nada, claro, diz o que todos nós queremos ouvir. Depois, parece tão técnica que quem ouve geralmente supõe que para alguém estar dizendo isso, certamente deve haver profundo conhecimento técnico por trás para embasar. Por isso mesmo sustentabilidade, se mal usada, é uma palavra muito perigosa. É a chave mágica que abre todas as portas para exploração de populações biológicas em áreas que de outra forma seriam protegidas. É a base filosófica de todo um gigantesco paradigma no qual se assenta a atual política “ambiental” brasileira. Nunca antes na história desse país se demarcou tantas “reservas de desenvolvimento sustentável”, em muitos casos sem se fazer a mínima idéia se a exploração estimulada com o nosso dinheiro é de fato sustentável. Se tudo isso for um gigante de pés de barro, estamos em maus lençóis.Sustentabilidade, palavra perigosa: use com cuidado. Usar levianamente um conceito de tal importância é desastroso para as gerações futuras da própria definição, assim como para a conservação da biodiversidade. Como qualquer outra pessoa preocupada com o bem estar social da humanidade, adoraria ser convencido que qualquer utilização de recursos naturais seja de fato sustentável. Mas para isso é preciso ter argumentos convincentes que o demonstrem, não basta presumir que algo é sustentável só porque gostaríamos que assim fosse.
Washington Novaes: a visão da sociedade e o futuro amazônico
O Brasil não tem estratégia para a Amazônia. Não há recursos para implantar o cadastro fundiário (só 4% das terras são registradas), monitorar o território, fiscalizá-lo e impedir o desmatamento ilegal: o Ministério do Meio Ambiente só tem cerca de 0,5% do Orçamento federal.Não há "transversalidade" na política federal, cada Ministério cuida de seus interesses específicos - enquanto isso, já há ali mais de 70 milhões de cabeças de gado e cerca de 20% do bioma foi desmatado para a expansão agropecuária e extração ilegal de madeira (mais de 150 mil km2 só de 2000 para cá).
"Reserva legal" em cada propriedade é apenas ficção. Os gastos federais no bioma não passam de 4,05% do total, enquanto a população amazônica supera 12% da população brasileira.
A região continua a ser receptora de mão-de-obra desempregada em outras partes.
Continuam sem resposta as objeções de cientistas à lei que permite concessão de terras públicas para "manejo" por empresas (países que entraram por esse caminho perderam suas florestas).
Seria possível destacar muito mais pontos, mas não é necessário, o tema tem sido muito tratado. Talvez seja interessante salientar algumas discussões por outros ângulos, que ocorreram durante o recente Simpósio de Cultura e Natureza na Amazônia, parte do Festival Literário Internacional da Floresta, na parte que tratou especificamente de "desenvolvimento e natureza na Amazônia".
Era inevitável que se falasse ali do tema da "ameaça de internacionalização da Amazônia". Vários conferencistas lembraram, entretanto, que de certa forma essa "internacionalização" já ocorre, uma vez que grande parte das mais importantes atividades econômicas no Estado está voltada para interesses externos - a exportação de madeira, soja e carne para países que não querem arcar com os custos socioambientais dessas atividades (que são pesados); a exportação de ferro-gusa e alumínio, que têm altíssimo custo ambiental e energético (em grande parte subsidiado e transferido para a conta de toda a sociedade brasileira); a Zona Franca para empresas de outros países; o comércio de minérios - para só citar alguns. Pode ser interessante, entretanto, colocar o foco sobre a questão da falta de uma "identidade amazônica" (decisiva durante séculos para a conservação da floresta), que dificulta a formulação de uma estratégia competente e necessária. Vale a pena começar, aí, por uma intervenção do sociólogo e poeta João de Jesus Paes Loureiro, autor de vários livros sobre a realidade cultural amazônica, para quem "o imaginário popular é uma visão de progresso social", com sua "crença em vidas possíveis".
"O caboclo", diz ele, "é um viajante imóvel: busca conhecimento, significado, na profundidade, não na distância" - mas só é visto como pitoresco, folclorizante. E essa "lacuna de interpretação leva ao risco de perda desse tesouro da cultura amazônica". De fato, como chegar a uma estratégia amazônica que não passe pela visão popular, social? O professor Narciso Lobo trafegou pela mesma senda: "Precisamos nos inventar mais uma vez." Com a dificuldade trazida pelas visões tecnológicas, que "encobrem a realidade".Já o escritor Márcio Souza (Mad Maria e Galvez, Imperador do Acre, entre outros livros) enfatizou que "não construímos o relato do passado" - um passado muito rico, já que a Amazônia, antes dos muitos massacres pelos colonizadores que sofreu, era povoada por milhões de indivíduos, a começar pelos índios. "Se jogarmos uma agulha para o alto" - o escritor citou o historiador João Daniel, do século 17 - "ela cairá na cabeça de um índio." Mas onde está o relato desse tempo, dessa vivência, de sua resistência à ocupação, dos caminhos pelos quais influenciou a possível identidade amazônica e a preservação da floresta? Como "aprender com essa cultura a não destruir o meio ambiente?" Sem essa cultura não haverá Amazônia, afirma o escritor. Só restará folclore, que é "o que resta da cultura popular depois que a polícia passa".
Certamente por causa da ausência dessa cultura, continua-se a falar em "desbravar a floresta", observou o ex-secretário de Meio Ambiente da Amazônia Virgílio Viana. E a conceder crédito público a quem desmata uma floresta que existe há pelo menos 1.500 anos, como lembrou o professor Niro Higuchi, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ao tratar dos riscos que o desmatamento da Amazônia traz para a área do clima, se liberar o imenso volume de carbono seqüestrado pelas árvores.
Pode-se concluir com o raciocínio do professor Charles R. Clement, também do Inpa, em texto inédito: "Manter a floresta em pé e garantir crescimento sustentável é uma equação que nós, Homo sapiens agricola, não sabemos decifrar. Isso nunca foi necessário ao longo da expansão de nossa subespécie. Não evoluímos para isto. (...) Chegamos ao século XXI convencidos de que podemos tudo." Mas, "se continuarmos a ser apenas modernos, não temos futuro. A solução não é ser pós-moderno. (...) O futuro da Amazônia e da nossa espécie depende de uma evolução sociocultural nova: a transformação de Homo sapiens agricola em Homo sapiens sustentabilis, em menos de uma década" (o tempo que a ciência nos dá para enfrentar as mudanças climáticas e o consumo insustentável).
É um desafio imenso, que não se resolverá na Amazônia sem incorporar a visão da sociedade, e não apenas a visão econômica e tecnológica.





















