24 de dezembro de 2008

Ignacy Sachs: Amazônia, laboratório das biocivilizações do futuro

Motivado pelo terror da Segunda Guerra que assolava a Europa em meados do século XX, o jovem polonês Ignacy Sachs refugiou-se no Rio de Janeiro, onde teve a chance de cursar economia. Com o fim da guerra, Sachs retornou à Polônia onde começou a atuar em um centro de pesquisas sobre as economias de países em desenvolvimento, e pouco tempo depois foi convidado a integrar o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo, na França. Sua predisposição em conceber o desenvolvimento como uma combinação de crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental acabou sendo um dos pilares do debate contemporâneo sobre a necessidade de um novo paradigma de desenvolvimento, que se consolidou em um termo bastante em voga atualmente, embora na maioria das vezes mal aplicado: o desenvolvimento sustentável. 

Em plena atividade desde então, Ignacy Sachs tem dedicado seus esforços ao futuro da Amazônia, defendendo que o desenvolvimento deve ser, além de "ambientalmente sustentável", socialmente includente. Para preparar terreno para o Fórum Social Mundial em Belém, que vai ocorrer entre 27 de janeiro e 1 de fevereiro de 2009, Ignacy redigiu um ensaio (veja aqui na íntegra) onde ele discute vários temas contemporâneos sobre a Amazônia, oferecendo um panorama detalhado sobre a sociedade e a economia na região, incluindo temas como crescimento populacional em áreas urbanas e rurais, pecuária extensiva, mineração, falta de divisão de renda, falta de perspectiva para pequenos agricultores, crescimento de populações indígenas, certificação socioambiental (para biocombustíveis, produtos florestais e agrícolas), construção de estradas, regularização fundiária e financiamento para atividades de pesquisa e manejo.

Antes de tudo, deve-se por um fim a práticas devastadoras da floresta e planejar o máximo das atividades econômicas nas áreas já antropizadas. O zoneamento econômico ecológico é essencial para o planejamento das atividades na bacia amazônica. Contudo, zonear não significa determinar certas aptidões econômicas para cada região, mas sim evidenciar quais atividades não são indicadas para dada localidade, pois as atividades econômicas mudam ao longo do tempo e isso poderia engessar o desenvolvimento. Segundo o IBGE, 15% em área da Amazônia já foi alterada: a pecuária responde por 8%, as matas secundárias por 5%, a agricultura por 2% e as áreas urbanas por 0,05%.

Segundo Ignacy Sachs, embora haja uma tendência mundial de concentração de pessoas em áreas urbanas, defendida por alguns cientistas (veja: A urbanização pode ajudar a reduzir o desmatamento na Amazônia?) e por membros da ONU, a urbanização não pode ser encarada como uma panacéia para a proteção dos recursos naturais na Amazônia. O economista critica a ilusão de que a soma de iniciativas locais pode substituir um plano de desenvolvimento nacional. Para mudar o rumo do desenvolvimento na região, é preciso desenvolver políticas participativas, consistentes e eficazes, que sejam planejadas em longo prazo com flexibilidade e transparência nos níveis local, regional e nacional. Um dos meios para aumentar o diálogo entre diferentes setores da sociedade pode ser através de fóruns que contem com a participação de órgãos públicos, sociedade civil organizada, universidades, etc. Um exemplo em andamento é o Fórum Amazônia Sustentável.

Por fim, Sachs reconhece que algumas idéias do Plano Amazônia Sustentável (PAS) coincidem com idéias apresentadas em seu ensaio, mas questiona algumas incongruências potenciais. "Como o plano será compatibilizado com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) na Amazônia Legal, que contempla vários investimentos em infraestutura e cujos impactos ambientais têm gerado grande polêmica? E de que maneira deve ser conduzido o planejamento para ser efetivo, lembrando que o planejamento é um processo contínuo de diálogo e negociação com todos os protagonistas do processo de desenvolvimento e não se reduz de maneira alguma à elaboração de um plano? A rigor, o PAS é apenas um pretexto para um planejamento contínuo..."

17 de dezembro de 2008

Amazônia: desafio brasileiro do século XXI

Como profissionais e cidadãos, temos grande responsabilidade sobre o futuro da Amazônia. Os desafios são imensos, mas não imensuráveis, nem insolúveis. Embora a pressão sobre o bioma seja cada vez maior, maior também é a capacidade de gerar, aplicar e divulgar conhecimento, buscando democraticamente a melhoria da qualidade de vida da sociedade humana. E nessa batalha de gigantes não estamos sozinhos, felizmente. 

Segue uma proposta da Academia Brasileira de Ciências sobre um modelo de desenvolvimento para a bacia amazônica, assinada por Adalberto Val, Bertha Becker, Carlos Nobre, Hernan Guralnik, Jacob Palis Junior, Roberto Dall'Agnol e Marcos Cortesão Barnsley Scheuenstuhl. Pretende-se estimular a discussão de um grande desafio para a humanidade: conciliar o desenvolver e o conservar na Amazônia. O ingrediente primordial? Educação e formação de recursos humanos. Leitura essencial para quem se interessa por políticas públicas.

Clique no link abaixo para ler a íntegra ou aqui para obter o PDF.

15 de dezembro de 2008

Sobre padeiros, pedreiros e cientistas


Por Thaise Emilio e Helder Mateus

Quando lemos "Legal, mas pra que serve isso?", texto de Aline Lopes, nos identificamos imediatamente. É recorrente para nós pesquisadores (ou aspirantes a) ao escrever um projeto, ou descrever resultados de um trabalho, ou ler um artigo, e em vários outros momentos, parar e fazer exatamente este mesmo questionamento: Tá, mas pra que serve isso??? É um questionamento importante, e se não temos a capacidade de fazê-lo estamos fadados ao enfado. Entendemos que cada organismo vivo tem seu papel no funcionamento do planeta, nem que seja acumular um 'carbonozinho' por um tempo (de segundos a centenas de anos) e depois repassá-lo a outros componentes do ciclo. Isto não justifica a mediocridade, claro, mas o que queremos dizer é que existem padeiros, pedreiros e cientistas.

Desde que o mundo é mundo cada um tem uma função a desempenhar. Nas longíquas aulas de história aprendemos que esses papéis vão mudando conforme evoluem as sociedades. Nas sociedades coletoras-caçadoras alguns eram responsáveis pela caça e outros pela coleta de frutos. Na idade média eram tempos de reis, senhores feudais, vassalos, servos... e assim vai... O tempo passou, ainda temos que ter uma função a desempenhar, mas o papel social do que fazemos não é mais tão claro quanto era na idade da pedra. Aqui, alguns de vocês devem estar pensando que estamos equivocados, afinal é muito clara a função social de um padeiro, de um pedreiro. Mas para que exatamente serve o trabalho de um físico, historiador, biólogo ou de qualquer outro cientista? É fácil pensar no 'porquê' de profissões que estão diretamente relacionadas com nossas necessidades cotidianas, em profissionais que quando não estão ali sua ausência é imediatamente sentida. Compartilhamos aqui lembranças das greves intermináveis da época da faculdade, daquelas que só acabavam quando comprometiam o vestibular, e de quando pensávamos que essas greves não seriam tão longas se fossem lixeiros (ou padeiros!) e não professores que estivessem parados. Nossas necessidades cotidianas são necessidades concretas e muito distantes das questões abstratas dos cientistas.

Temos que concordar que não é simples pensar no trabalho abstrato dos cientistas como tijolinhos de uma construção maior, que é o conhecimento da humanidade. Para entender melhor isso, basta perguntar para um feirante qual a utilidade do estudo dos movimentos planetários feitos por Kepler no século XVII para a sua atividade, é pouco provável que ele faça um discurso sobre a influência desse trabalho para a formulação de lei da gravitação universal por Newton e que sem aquilo as balanças digitais não seriam possíveis e bla-bla-bla... Onde queremos chegar com isso é: muitas vezes quem não é cientista não entende a ciência como parte do mundo, assim como os cientistas se esquecem que são parte da sociedade, como bem lembrou o Daniel Munari (o Mindu) na última reunião dos jovens cientistas da ULE. Cada um vive bem no seu mundinho e quando cientistas precisam do resto da sociedade ou quando o resto da sociedade precisa dos cientistas é que nos damos conta que falamos línguas completamente diferentes. Mas por que isso acontece? Quando foi que nos separamos do resto do mundo?

Estamos, nós cientistas, acostumados a viver cada dia num mundo mais complexo de questionamentos profundos, análises estatísticas mirabolantes e o tempo se encarrega de deixar alguns de nós completamente alienados. A alienação é importante para a concentração e só por meio da concentração é que conseguimos lidar com problemas complexos que fazem parte do nosso cotidiano. Mas nem sempre voltamos desse mundo 'imaginário'. Muitas vezes não conseguimos resgatar nosso objetivo inicial (aplicado ou não) ou traduzi-lo para os demais interessados. Mas isso também não é tão fácil assim como parece.


Acontece, e acontece muito mesmo, que nem todo o conhecimento que geramos é imediatamente útil para a sociedade como um todo. Muito do que produzimos é útil para os nossos pares (outros cientistas) e será útil para a sociedade como um todo décadas mais tarde. Uma história clássica ilustra isso que estamos falando. Quando Isaac Newton (o mesmo de dois parágrafos atrás) foi questionado sobre como é que ele tinha conseguido ver tão longe ao formular a lei universal da gravitação a partir da simples queda de uma maçã, ele respondeu que tinha conseguido enxergar longe porque se apoiou no ombro de gigantes, referindo-se aos conhecimentos gerados por Kepler e Galileu um século atrás.


Existem problemas seríssimos para serem resolvidos todos os dias (toda a questão ambiental é um bom exemplo disso), mas bem sabemos que se toda a ciência produzida fosse somente ciência aplicada, em pouco tempo deixaríamos de enxergar longe por não existirem mais 'ombros' para nos erguer. A situação descrita pela Aline em "Legal, mas pra que serve isso?" é um exemplo de como está deficiente a comunicação entre os cientistas e a sociedade como um todo. Falamos isso porque o trabalho da Aline é um dos mais aplicados por aqui e se explicar um trabalho aplicado não foi fácil, imagine só explicar algo como um trabalho de ciência básica? Um sofrimento!


Essa coisa toda de pensar a divulgação científica como um dos pontos mais importantes do 'ser cientista' tem assumido um papel muito grande em nossas vidas recentemente. Diariamente nos angustiamos ao saber que algumas coisas poderiam ser feitas de melhor forma se as informações científicas chegassem aonde deveriam. Ao refletir sobre o porquê disso, chegamos a duas conclusões: a primeira é que somos culpados e a segunda é que, como culpados, podemos tentar nos redimir e mudar o modo como divulgamos ciência.

De maneira muito pertinente, o geólogo português Dr. Galopim Carvalho (foto), ex-diretor do Museu Nacional de História Nacional, da Universidade de Lisboa, discorre em seu texto "Ciência e Sociedade", sobre a importância da divulgação científica como elemento potencializador da capacidade de intervenção consciente do cidadão, quaisquer que sejam as suas funções ou vocações no tecido social em que se insere. Nesse sentido, acreditamos que a divulgação científica cabe muito bem aos nossos propósitos já que tiraria o peso de “detentores do conhecimento” das nossas costas e distribuiria isso por toda a sociedade. Acontece que pra divulgação científica ser eficiente é preciso simplificar e isso é tão estranho ao nosso dia-a-dia quanto ‘macrófitas aquáticas’ para taxistas.

Acreditamos que o primeiro passo desse processo de simplificação deve ser identificar para quem é útil o conhecimento gerado por nossa pesquisa. Isso porque nem todo conhecimento gerado é passível de ser traduzido para todos os públicos e não adianta forçar a barra. Por mais aplicada que seja uma pesquisa, os conhecimentos gerados fazem parte de pelo menos três universos distintos: aquele conhecimento basal que teve que ser gerado para servir como base para responder a sua pergunta mais aplicada, o conhecimento metodológico que será útil para outros pesquisadores que vierem a estudar assuntos relacionados e o conhecimento imediatamente aplicável. E aí sim, o conhecimento gerado e traduzido pode ser trazido de volta para outras camadas da "sociedade", tanto para aquele taxista como para os nossos pais ou para os ribeirinhos ou comunitários da área onde trabalhamos. Com isso, talvez ouvíssemos tantos “Legal, mas pra que serve isso” quanto padeiros e pedreiros.




[thaise.emilio@gmail.com & espiritosantohm@gmail.com]

Guia de Samambaias e Licófitas da REBIO Uatumã – Amazônia Central

Uma das maiores limitações para se desenvolver estudos básicos ou aplicados na Amazônia é ter material de referência para se identificar espécies em campo, com segurança e objetividade. Vista de fora, as florestas amazônicas podem parecer um mar verde, infinito e relativamente homogêneo em seus elementos constituintes. Mas quem se aprofunda no conhecimento sobre a biodiversidade da região descobre logo a insustentabilidade desse argumento. A Amazônia é extremamente heterogênea: a variação na composição de espécies, a diversidade beta, é imensa mesmo entre locais próximos. Compreender processos que influenciam essa taxa de mudança espacial é essencial para planejar a conservação biológica. Contudo, os pesquisadores interessados nesses temas se deparam inevitavelmente com a carência de guias de identificação.  

Guia de Samambaias e Licófitas da REBIO Uatumã – Amazônia Central, de Gabriela ZuquimFlávia CostaJefferson Prado e Hanna Tuomisto, é fruto dessa demanda. O guia representa um exemplo maravilhoso de colaboração entre ecólogos e taxonomistas, que essencialmente possuem visões complementares sobre a biodiversidade. Dentre os autores, Jefferson Prado (Instituto de Botânica, IBt-SP) é o mais experiente em taxonomia. Ele foi fundamental para sustentar o processo de identificação das espécies que ocorrem no Uatumã. Contudo, Gabriela Zuquim, Flávia Costa (ambas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa) e Hanna Tuomisto (Universidade de Turku, UTU) são ecólogas na maior parte do tempo e possuem muita experiência em campo, fornecendo aos leitores informações únicas sobre como observar características das plantas, muitas das quais são diagnósticas. Muitas dessas características de campo, como cor, brilho e hábito, não são preservadas nos materiais depositados em herbário e, por isso, não são usadas nas descrições das espécies.

O guia trata de 120 espécies, ricamente ilustradas e acompanhadas de descrições e dicas para o reconhecimento em campo. Possui uma introdução sobre o grupo direcionada para o público em geral, mas seu conteúdo é completo, abrangendo aspectos sobre biologia, ecologia, evolução e conservação, o que permite que seja usado como referência em cursos básicos de botânica. Como os outros guias produzidos pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) e pela Áttema Design Editorial, o guia foi escrito em Português e Inglês, em uma linguagem menos técnica o possível. O guia possui um glossário e uma chave ilustrada por Angela Midori, que facilita muito a compreensão de termos técnicos e das estruturas das plantas e a busca dos possíveis gêneros ao qual uma espécie pode pertencer.

O prefácio foi escrito por Alan Smith, botânico e especialista em samambaias (Universidade da Califórnia, Berkeley). Acima de tudo, espera-se que o guia possibilite a ampliação do estudo das samambaias na Amazônia e sirva de incentivo para a escolha deste grupo em trabalhos de iniciação científica, cursos de campo e trabalhos escolares. O guia poderá ser útil para um público amplo, formado por professores de escolas primárias e secundárias, guias turísticos, estudantes de biologia e pesquisadores.

Para baixar o Guia de Samambaias em PDFclique aqui [19,5 MB].

Para dar uma olhada no Guia de Samambaias, folheie as páginas ou clique no link abaixo.


O livro estará disponível em versão impressa no começo de 2009, mas por ser derivada de uma doação do CNPq ao PPG7, ele não poderá ser comercializado. Os interessados em receber a versão impressa podem fazer pedidos para Gabriela Zuquim no e-mail: fernguide@gmail.com. Entretanto, como a tiragem será de apenas 1.000 exemplares, será dada prioridade de envio a instituições e profissionais que trabalham diretamente na área. Contudo, saber se há mais interesse no livro poderá ajudar a conseguir recursos para uma nova tiragem.

13 de dezembro de 2008

Atualização num mar de informação


Vivemos em uma sociedade de informação. Nossa geração transcendeu a comunicação sem precedentes na história da humanidade e atualmente em todo globo terrestre encontramos meios de difundir uma mensagem. A internet propicia facilidade em se garimpar qualquer tipo de informação. E haja informação. A rede não cessou de crescer desde sua origem. Permeados por esse crescimento, muitos setores da sociedade passaram a utilizar as facilidades promovidas pela internet – comerciantes, educadores, poetas, pessoas a procura de amigos e, claro, cientistas. Sim, o setor acadêmico, onde são realizadas pesquisas científicas e muita informação é gerada, não fugiu a regra e também se apoderou da rede. 

Nesse meio século de convívio com a internet, a produção científica aumentou explosivamente e os periódicos científicos ampliaram a tiragem, número de páginas e até mesmo a periodicidade, o que é traduzido em maior quantidade de informação divulgada. Novas revistas científicas foram e são criadas para suprir essa demanda e hoje a maior parte dos leitores usa o meio digital. Bibliotecas inteiras já cabem em poucos centímetros quadrados de um disco rígido e podem ser visitadas a partir de um ponto no outro extremo do mundo. Mas como se manter informado em meio a essa profusão de conhecimento? 

As “grandes” empresas de divulgação cientifica oferecem um serviço gratuito em que podemos escolher as revistas que desejamos nos manter inteirados (table of contents alerts). Assim, a cada nova edição daquele periódico, é possível receber o índice da revista e links para os artigos em sua caixa de email, sem precisar visitar cada periódico. Se estivermos em uma instituição pública ou se o artigo tiver acesso livre, podemos até mesmo baixar o arquivo para leitura na mesma hora. Achei bem legal essas opções, pois fujo um pouco de ler apenas os artigos com as palavras chave que decidi – posso saber o que mais acontece pelo mundo da pesquisa e até mesmo ter idéias adaptadas de outros estudos não tão relacionados com o meu. É uma forma de não ler apenas conteúdo tão especializado, de ver outras visões do mundo. Outra boa nova é que ficamos sabendo o escopo das revistas e assim podemos ter uma decisão mais consciente onde divulgar nossa pesquisa.

Seguem alguns links para fazer isso:

Estejam preparados para um mundo de informações. Se manter atualizado será cada vez mais difícil - não podemos cochilar.

12 de dezembro de 2008

Guia de Lagartos da Reserva Ducke (Amazônia Central)

Dando continuidade à produção de guias de identificação de espécies da Amazônia, Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) publicou em 2008 o Guia de Lagartos da Reserva Adolpho Ducke - Amazônia Central. Os autores, Laurie Vitt, William Magnusson, Teresa Cristina Ávila Pires e Albertina Lima, mantiveram a mesma linha do projeto gráfico do Guia de Sapos, feita pela Áttema Design Editorial. A preocupação em aliar conteúdo científico, imagens belíssimas e textos escritos em linguagem simples, em dois idiomas (Português e Inglês), torna o guia acessível para um público amplo, formado por alunos, turistas e cientistas. O guia traz um panorama aprofundado sobre a biologia, ecologia e história evolutiva das espécies de lagartos que ocorrem na Reserva Ducke e nos arredores de Manaus. Dentre essas espécies, estão cobras-de-duas-cabeças, lagartixas, osgas, iguanas, mabuias e jacurarus. Estes animais são muito diversos em forma, cor e comportamento, e constituem um importante elemento da cadeia trófica em florestas tropicais. O guia tem ainda duas chaves de identificação, uma morfológica e outra de campo, facilitando a identificação das espécies. Seu prefácio foi escrito por Eric Pianka (Universidade Denton A. Cooley Centennial, EUA), renomado herpetólogo norte-americano.

O Guia de Lagartos foi publicado tanto em formato impresso quanto em formato PDF. A versão PDF tem todo conteúdo amarrado com links, o que deixa a navegação bem dinâmica. No primeiro semestre de 2009, a versão impressa será distribuída gratuitamente para muitas escolas do município de Manaus e do interior da Amazônia, e também para universidades, institutos e fundações. Se você tiver interesse em incorporar uma cópia impressa do guia a alguma instituição pública, como uma biblioteca, entre em contato através do email: ppbio@inpa.gov.br.

Para baixar o Guia de Lagartos em PDF, clique aqui [5,88 MB]. 

Para dar uma olhada no Guia de Lagartos, folheie as páginas ou clique no link abaixo.


Para conhecer mais, visite o Portal PPBio: http://ppbio.inpa.gov.br/Port/guias/

Adquira o Livro Vermelho da fauna brasileira. É de graça!!

O Ministério do Meio Ambiente disponibilizou o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção em versão PDF para download. São dois volumes contendo contextualizações gerais para cada grupo taxonômico, distribuição geográfica de cada espécie com mapas, além de registros em unidades de conservação, principais ameaças, estratégias de conservação, referências bibliográficas, e até a indicação de especialistas e suas respectivas instituições. Vale a pena conferir!! O único problema é que cada capítulo tem que ser baixado independentemente. Para baixar, acesse o linkclique em "Fauna Ameaçada", depois em "Publicação - Livro Vermelho" no canto esquerdo da tela. Aproveitem!!
Abraço a todos, e aproveitando,
FELIZ NATAL!!!! 

6 de dezembro de 2008

PNUMA lança Atlas sobre carbono e biodiversidade em Poznan

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou ontem (5/12/08) em Poznan um Atlas sobre carbono e biodiversidade, com foco no desmatamento em países tropicais. Além de possuir uma série de mapas indicando regiões do planeta que compartilham grande densidade de carbono com hotspots de biodiversidade, o documento sugere como a redução de emissões de gases, causadas por desmatamento, pode ajudar não só a combater o aquecimento global, mas também a conservar a biodiversidade. O atlas traz um panorama mundial, mas examina alguns países em regiões tropicais para ilustrar diferentes realidades sócio-ambientais e políticas. A expectativa é de que o atlas ofereça um exemplo positivo de como orientar governos nas decisões sobre onde proteger as florestas. Contudo, efetivamente, qual é a aplicação desses resultados na formação de políticas públicas para a Amazônia?


O que está em discussão desde a COP 13 (Bali, 2007) é a criação de um mecanismo financeiro para estimular atividades de mitigação das causas das mudanças climáticas, baseado na conservação de biodiversidade e dos processos ecossistêmicos (desmatamento evitado), no manejo sustentável de florestas e no incremento dos estoques de carbono. No mapa acima, é possível ver que a densidade de Carbono (em marrom) é maior nos trópicos e em altas latitudes no hemisfério Norte, enquanto que a biodiversidade (em verde) é maior em baixas latitudes. Estima-se que o desmatamento esteja associado com 20% das emissões antrópicas mundiais e  alguns países tropicais tem grande responsabilidade sobre essas emissões, dentre eles obviamente o Brasil (hoje, cerca de 75% dos gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil provém de desmatamentos, a maioria na Amazônia).

A idéia é muito interessante: acoplar a proteção de áreas destinadas à conservação da biodiversidade com a proteção do Carbono estocado em sua biomassa. Contudo, priorizar exclusivamente áreas que conciliam alta densidade de Carbono e de espécies pode ser perigoso para a biodiversidade, pois não existe uma relação direta entre biomassa (estoques de carbono) e o número de espécies em um ecossistema. Existem tanto florestas pobres em espécies mas gordas em biomassa, quanto florestas riquíssimas em espécies, mas com baixa densidade de Carbono. Mais grave ainda, como nos trópicos a biodiversidade é pouco conhecida, o atlas subestima a importância de áreas imensas. Não é novidade que o conhecimento científico sobre a diversidade de espécies na bacia amazônica está altamente concentrado ao redor de grandes cidades, como Manaus e Belém. Isso foi bem caracterizado por dois pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Bruce Nelson [Nature] no início da década de 90 e Mike Hopkins [Journal of Biogeography] em 2007. Segundo Hopkins, na Amazônia ainda esperamos encontrar cerca de 50.000 novas espécies de plantas. 50.000 espécies!

Este gráfico sobre a região Neotropical indica o total de Carbono ou total em área particionados por regiões que tem grande concentração de Carbono e/ou de biodiversidade. Note que a proporção total dos dois parâmetros avaliados em que existe congruência entre alta densidade de Carbono e de espécies é muito baixa, o que reforça o temor em usar esse raciocínio sem outros critérios complementares para orientar políticas públicas. Para quantificar a biodiversidade em escala global, o PNUMA se baseou em poucas fontes [Hotspots da Conservation International, Ecorregiões da WWF, Birdlife International Endemic Bird Areas (EBAs), WWF/IUCN Centres of Plant Diversity (CPDs) e Amphibian Diversity Areas]. Nos mapas do atlas, as áreas com alta biodiversidade são aquelas em que três ou mais dessas fontes confirmaram esse padrão. Segundo esse critério, a Amazônia não tem grande biodiversidade, pois apenas duas das fontes possuem informações sobre a região,  o que obviamente não reflete a realidade.

Acoplar a redução das emissões do desmatamento com retorno para a conservação biológica é um processo que renderá frutos suculentos em um futuro próximo. Porém, generalizar a relação do Carbono com a biodiversidade sem existir informações suficientes sobre QUAIS são e ONDE estão as espécies, pode ser prematuro. Como o processo de acúmulo de conhecimento da biodiversidade é lento e depende do número de pessoas envolvidas, é imprescindível que sejam direcionados recursos com urgência para atrair e fixar pesquisadores na Amazônia. De outro modo, nunca existirão dados disponíveis para subsidiar políticas públicas para o meio ambiente. É bom acordar, pois no mercado de Carbono, temos muito a ganhar.

Por Ricardo Braga-Neto [06/12/08]

5 de dezembro de 2008

Políticas públicas (ou privadas?) para o meio ambiente

A ausência de discussão razoável sobre a reformulação do Código Florestal traz à tona o descaso do Ministério da Agricultura com a manutenção dos fluxos de energia que sustentam a mesma produtividade agrícola que defendem a todo custo. A visão parcial desse ministério é a demonstração de uma das características compartilhadas pela grande maioria dos seres humanos (incluindo eu): cada um defende o seu e os seus. Pena que os caras sejam tão nó cegos a ponto de não perceberem o tiro nó pé que estão dando ao negligenciar os cuidados mínimos com o meio ambiente.

Para entender melhor, visite o site
Amazonia.org.br.

Legal, mas pra que serve isso?

Por Aline Lopes [bióloga, alopesmga@gmail.com]

Quem nunca ouviu essa pergunta? De uma forma ou de outra, em algum dia, você vai se deparar com ela. E desse dia em diante, pode ter certeza: ela vai fazer parte do seu cotidiano. Isso porque além de aparecer rotineiramente em relatórios, projetos, dissertações ou teses, com o nome de “justificativa”, ela pode surgir de repente em qualquer lugar que você esteja.

Leia mais no link abaixo...

4 de dezembro de 2008

Guia de Sapos da Reserva Ducke (Amazônia Central): nova versão com vídeos dos cantos

Para reverter a grande carência de materiais didáticos sobre a biodiversidade na Amazônia, o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) tem incentivado a produção de guias de identificação de espécies, visando formar  uma série de guias para diversos grupos biológicos em um futuro próximo. Estão previstos guias sobre samambaias, ervas terrestres, peixes, formigas, fungos macroscópicos e escorpiões, dentre outros. Esses guias, produzidos em excelente qualidade gráfica pela Áttema Design Editorial, são escritos em uma linguagem simples, permitindo atingir um público amplo, formado tanto por cientistas e alunos do ensino médio e superior, quanto por turistas e outros admiradores da natureza. Além disso, por serem escritos em formato bilíngue (Português e Inglês), esses guias interessam muito ao público internacional. O guia de sapos foi o primeiro da série.

O Guia de Sapos da Reserva Adolpho Ducke - Amazônia Central, de Albertina Lima, William Magnusson, Marcelo Menin, Luciana Erdtmann, Domingos Rodrigues, Cláudia Keller e Walter Hödl, foi lançado em 2006. O conteúdo do guia já era suficientemente completo para permitir que qualquer interessado realizasse identificações seguras e se aprofundasse na biologia, história evolutiva e ecologia desses extraordinários sapinhos amazônicos. Mas não se contentem com tão pouco! Recentemente, os autores lançaram uma nova versão eletrônica com uma incrível ferramenta: o guia vem acompanhado de pequenos vídeos com o canto da maioria das espécies. Os créditos dos vídeos pertencem a Karl Mokross, a menos que esteja indicado outro autor.

Para baixar o Guia de Sapos em PDF com os vídeos dos cantos, clique aqui. Todo conteúdo foi condensado em um arquivo ZIP ('guia-sapos-mpeg.zip'). Ao baixar esse arquivo ZIP [89 MB], deixe a pasta contendo os vídeos na mesma pasta do arquivo PDF. Os vídeos poderão ser acessados de dentro do arquivo PDF através do ícone de vídeo na descrição de cada espécie.

Para dar uma olhada no Guia de Sapos, folheie as páginas ou clique no link abaixo.


Quem trabalha com anfíbios, poderá fazer amplo uso desse conteúdo para aprender a identificar as espécies pelo canto, um processo muito útil em estudos ecológicos, levantamentos de fauna e estudos de impacto ambiental (EIA). Dentre centenas de espécies que ocorrem na região, Atelopus spumarius (Bufonidae) pode ser encontrado com facilidade tanto visual quanto auditivamente nas margens dos igarapés que formam as microbacias do Tinga, Uberê e Ipiranga na Reserva Ducke. Contudo, espécies difíceis de ser observadas podem ser registradas pelo canto, como Synapturanus mirandariberoi (Microhylidae) que canta com frequência antes de chuvas fortes. Essa versão do guia incorporou ainda uma atualização nomenclatural das espécies.

Para conhecer mais guias, visite o Portal PPBio: http://ppbio.inpa.gov.br/Port/guias/

3 de dezembro de 2008

Quiero ser tortilla: animação sobre biocombustíveis no México

[Fonte: Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 28/11/08]

Sabia que 75 de cada 100 pessoas que passam fome são produtoras de alimentos, como pequenos agricultores, camponeses, sem-terra e pescadores?

A afirmação está no vídeo “
Quiero ser Tortilla” (em espanhol), que está circulando na internet, sobre a competição entre agrocombustíveis e alimentação. Vale a pena assistir.

Os mexicanos sofreram com o aumento no preço do milho, base de sua alimentação, que está na mira das usinas produtoras de etanol nos Estados Unidos. Enquanto isso, discute-se por aqui como a produção de biodiesel e de etanol de cana pode causar o mesmo problema, considerando a disputa por terra para produção de gêneros alimentícios.

O vídeo é uma realização dos
Veterinários sem Fronteiras, uma organização não-governamental que atua para melhorar a qualidade de vida das populações desfavorecidas. Possui projetos com o objetivo de desenvolver a produtividade animal em comunidades rurais.

Macroecologia: entrevista com Miguel Ángel Rodríguez (Univ. de Alcalá, Espanha)

[Fonte: Bafana Ciência, 11/03/08]



O que a Espanha tem? Além das touradas e do clássico “Barça e Real” a terra de Cervantes também produz Ecologia de primeira linha. O professor Miguel Ángel Rodríguez do Departamento de Ecologia da Universidade de Alcalá esteve no Brasil realizando uma série de trabalhos no Laboratório de Ecologia Teórica e Síntese – LETS da Universidade Federal de Goiás, onde gentilmente concedeu esta entrevista ao doutorando do NUPELIA (UEM- Maringá), Dilermando Pereira Lima Júnior. De forma muito descontraída, porém profunda, Miguel Rodríguez contou sobre sua formação, suas principais linhas de pesquisa, apontou tendências na Ecologia no século 21, terminando a entrevista com dicas para jovens ecólogos. Confira.

Fale um pouco sobre sua formação e seu histórico como ecólogo. Sou graduado em Biologia pela Universidade Autônoma de Madrid, a maior universidade da Espanha em número de alunos. Meu primeiro trabalho científico foi um estudo sobre comportamento de gado em liberdade numa paisagem similar ao cerrado brasileiro. Minha tese de doutorado foi relacionada à comunidade vegetais, em particular, com a estrutura subterrânea das raízes em comunidades de campos com diferentes graus de impacto devido à pastagem. Depois estudei muitos aspectos da Ecologia de Comunidades e da Ecologia de Populações de diversos grupos de organismos como vertebrados, plantas e insetos. Nos últimos cinco anos tenho me interessado por biogeografia e macroecologia.

Quando começou a se interessar por Macroecologia? Meu interesse por Macroecologia surgiu durante a tese de doutorado. Sempre me chamou a atenção a existência de muitos dados acumulados sobre o assunto e como trabalhava com vegetação, me interessava os dados fitossociológicos levantados pelos botânicos. Quando estava terminando meu doutorado, pensei que das meta-análises de muitos trabalhos poderiam surgir padrões interessantes. Daí fui fazer meu segundo doutorado no Laboratório de Bradford Hawkins, onde já havia uma base de dados preparada com essas informações, mas o maior interesse com esses tipos de questões aumentou quando o Brad também começou a se interessar pelo campo da Biogeografia, se tornando meu principal campo de investigação nos últimos anos.

Você acredita realmente nos padrões Macroecológicos como importantes fatores atuantes na estruturação de comunidades locais? Uma vez que muitos artigos mostram uma baixa correlação entre a diversidade de variáveis de grandes escalas espaciais. Sim, eu acredito nos padrões. Quando observamos os mapas de riqueza em escalas continentais, creio que esses mapas refletem realidades biológicas. É certo que os mesmos são criticados por mostrarem uma distribuição de espécies que representam mais hipóteses de distribuição do que a distribuição real das espécies, porém estudos mostram que esses mapas são boas explicações da distribuição. Quando observamos os mapas de tamanho corporal das espécies e outros padrões macroecológicos, a mim parecem que esses mapas refletem realidades biológicas. Outra coisa são as análises que fazemos dos dados, que nos mostram correlações entre variáveis climáticas e históricas e nossas interpretações. Se as nossas interpretações são corretas ou não, isso está para ser visto. O fato é que algumas variáveis explicam grande parte da variância, de aspectos como riqueza de espécies em escalas continentais e globais. Podemos encontrar variáveis como evapotranspiração que descreve mais de 70 % de variação da riqueza de espécies de diferentes grupos taxonômicos. Porém, se essa variação é uma resposta biológica dos organismos à quantidade de energia e água, ou se são meras covariações, que escondem outros mecanismos por trás destes padrões, são questões ainda por responder. Na verdade é a grande pergunta. Encontramos correlações com variáveis ambientais, mas correlações não implicam em um mecanismo causal.

Sabemos que nosso planeta hoje se encontra numa crise ambiental, com enormes prejuízos à diversidade biológica. Em se tratando de conservação você acha que a Macroecologia pode contribuir com a Biologia da Conservação ou são áreas distintas de pesquisa? Sim. Por um lado o estudo da biogeografia nos ajuda a identificar pontos no globo com grande riqueza de espécies (os hotspots de biodiversidade), com grande número de espécies endêmicas e/ou espécies raras. Claro que tudo isso é uma informação útil para a biologia da conservação. Por outro lado, a macroecologia pode evidenciar como e quais os mecanismos que estão afetando a distribuição das espécies em grandes escalas, por exemplo, avaliando o impacto humano nestas escalas. Nos últimos duzentos anos temos modificado o planeta como nunca antes na história. Isto sem dúvida tem afetado os padrões biogeográficos, portanto, estudos que estão focados em estabelecer até que ponto o impacto humano influencia os gradientes de riqueza de espécies podem ser muito importantes para medidas de conservação.

Quais são os motivos que lhe trazem ao Brasil? O principal motivo é que por aqui há um grupo de pesquisadores como José Alexandre Diniz Filho, Luis Maurício Bini e Paulo De Marco Junior excepcionalmente bom no campo da Macroecologia, com uma capacidade de análise que chama atenção e é reconhecido por pesquisadores da área em todo o mundo. Vir ao Brasil, para mim é uma oportunidade para aprender e fazer análises mais refinadas. E não digo isso por estar no Brasil…

Quais são as principais semelhanças e diferenças entre as universidades espanholas e brasileiras? É uma pergunta interessante. A principal semelhança entre as universidades dos dois países, que tanto professores brasileiros e espanhóis lamentam, é excesso de carga horária dedicada a aulas. Temos que ministrar cerca de 250 horas de aulas por ano aqui e na Espanha. Essa carga horária por ano não parece muito, mas quando comparamos isso a professores universitários dos Estados Unidos, que ministram cerca 40 e no máximo 60 horas de aulas por ano percebemos que estes professores têm muito mais tempo para concentrar-se em suas pesquisas e dedicar-se à orientação de seus alunos. Creio eu que solução para esse problema é permitir que professores com grande interesse por pesquisa se dediquem mais tempo a esse trabalho, sem necessariamente deixar de ensinar. Sou professor e gosto muito de ensinar. As diferenças são referentes a detalhes administrativos e de procedimentos. Só conheço no Brasil a Universidade Federal de Goiás (UFG). Enfim, os sistemas me parecem muito similares.

Como é vista a ciência brasileira na exterior, principalmente a Ecologia? E qual é principal contribuição do Brasil a ciência? Não posso citar uma única contribuição, uma vez que possui uma comunidade científica muito grande, estou falando de Ecólogos. Nomes com José Alexandre Diniz Filho (UFG) e Thomas Michael Lewinsohn (professor da UNICAMP) são muito conhecidos internacionalmente. Creio que os Ecólogos do Brasil tem uma participação muito importante no desenvolvimento da Ecologia. Aliás, me chama atenção a capacidade de análise que têm muitos ecólogos brasileiros. Não sei o porquê de aqui no Brasil haver uma concentração muito grande de Ecólogos que gostam de trabalhar com matemática e estatísticas. Provavelmente, algo no sistema educacional brasileiro enfatiza as matemáticas e estatísticas.

Qual a contribuição que o Brasil poderia dar à ecologia? A contribuição brasileira a Ecologia é enorme. A natureza brasileira é muito especial em escala mundial, a quantidade de biomas, a imensa biodiversidade, não há em outros locais no planeta… Creio que a Espanha não está tão mal em termos de contribuição, mas os países mais ao norte estão trabalhando com parte muito pequena da biodiversidade, poucas espécies condicionadas por um ambiente físico muito restritivo. Nos trópicos os processos ecológicos ocorreram de forma mais acelerada e têm maior importância para o conjunto da vida no planeta. Acredito que a contribuição do Brasil à Ecologia pode ser algo perto do excepcional, num futuro próximo.

Vamos discutir um pouco o método científico. Quando observamos a estruturação do pensamento científico atual há um compromisso com a separação entre imaginação e ciência. Mas, pensamos em grandes cientistas como Dimitri Mendeleiev que vislumbrou o formato da tabela periódica num sonho, ou Albert Einstein, que reza a lenda, pensou na teoria da relatividade tentando responder a pergunta “o que aconteceria comigo se me movesse na velocidade da luz”; ambas questões de caráter muito mais imaginativo. Até que ponto existe a separação entre imaginação e racionalidade na construção do pensamento científico? Não existe separação. Creio que são dois componentes essenciais dentro do método científico que chamamos de popperiano ou também hipotético dedutivo, não estou falando de indutivismo que é outra coisa. O pensamento científico se divide em duas etapas: uma primeira puramente imaginativa, daí o nome hipotético, tem que haver hipóteses, pensar em explicações, a imaginação é livre, pode ter a idéia num sonho, observando o mapa de riqueza de espécies; já a segunda etapa é deduzir predições sobre essas hipóteses que imaginamos e como elas podem ser testadas por meio de um método racional. Imaginação ligada a testes de hipóteses, as duas coisas são juntas não podem ser separadas. O método científico contempla a criatividade e rigor racional na hora de testar as nossas idéias.

Quais são as tendências da Ecologia nesse século que se inicia? Existe uma nova Ecologia sendo forjada? Creio que uma tendência, por um lado negativa, é que estamos assistindo a morte da Ecologia de Comunidades como a conhecemos hoje. A Ecologia de comunidades está se transformando basicamente porque estamos encontrando diversos padrões das comunidades que são muito idiossincráticos. Claro que esses padrões ajudam nos a entender o efeito de diversos fatores como competição, predação e mutualismos. Porém, creio não teremos maiores avanços. Creio que estamos assistindo a emergência de uma nova Ecologia de Comunidades, baseada em redes tróficas e metacomunidades. Creio que a Macroecologia e Biogeografia estão emergindo com grande força como o novo foco de interesse. Porque a junção dessas duas linhas de pesquisa, que na essência é uma, nos permite buscar explicações que até o momento não possuímos, além dos princípios básicos que atuam em grandes escalas.

Qual é a sua dica para jovens ecólogos e pós-graduandos que estão se formando agora e ainda têm poucos artigos publicados? Diria duas coisas… Primeiro publique tudo que podem. Nessa primeira fase de formação de mestrado e doutorado o pesquisador tem que estar ciente que está aprendendo. É importante fazer bons trabalhos, acabá-los e continuar trabalhando. Se você está investigando perguntas importantes, ótimo, mas o mais importante nessa fase é aprender. Dessa forma, fazer trabalhos mais clássicos (ou “conservadores”) e publicá-los é importante. Com avançar da carreira creio que tem que haver uma tendência em prezar a qualidade. É normal que no inicio da carreira o estudante publique muito, mas com maturidade diminua o número de publicações e invista em artigos melhores, mais bem acabados e de maior calibre científico. Com o tempo não importa tanto o número de artigos, mas as questões que se investiga. Resumindo: durante o mestrado e doutorado tente publicar muito em boas revistas internacionais e mais adiante se livrar da obsessão de número artigos e se concentre em idéias importantes para publicar em revistas de ponta.

2 de dezembro de 2008

Mudanças Climáticas: novo Portal entra no ar

Site multimídia reúne e organiza informação sobre o tema e facilita trabalho de jornalistas e pesquisadores em geral.

Nesta segunda-feira 1, quando tem início em Poznan, na Polônia, a 14ª Conferência das Partes (COP-14) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), entra no ar o Portal Mudanças Climáticas, verdadeira enciclopédia ecológica destinada exclusivamente ao tema das mudanças climáticas. A iniciativa é da Embaixada do Reino Unido no Brasil, do Conselho Britânico e da Agência de Notícia dos Direitos da Infância - ANDI.

Sempre atualizado e com material em Português, o portal vem enriquecer e facilitar a cobertura do tema pela imprensa, assim como a realização de pesquisas e trabalhos tanto acadêmicos quanto de outros níveis de ensino. Trata o assunto 'mudanças climáticas' de forma clara, acessível e abrangente. Oferece informações e reflexões contextualizadas, de maneira que o fenômeno apresente-se como de fato é: uma questão transversal, ou seja, que afeta todos os setores da sociedade. Para isso, conta com recursos extras, como vídeos, gravações de depoimentos, fotografias, entrevistas e artigos livres de copyright, desde que citadas as fontes. Especialmente aos jornalistas, devem interessar o glossário de termos da área e, sobretudo, o banco de pautas.

Alguns exemplos do vasto cardápio do portal:
  • Conceitos e definições
  • A agenda do clima
  • Busca de alternativas
  • Ciência do clima
  • Causas, impactos, soluções
  • Críticas e contrapontos
  • Políticas públicas
  • Clima e imprensa
De fácil navegação, o site permite tanto consultas rápidas quanto pesquisas mais profundas. A vasta relação de links para outros sites de temática semelhante facilita o trabalho de quem, depois de consultar o portal, desejar ainda mais informação ou dados específicos.

"Esse trabalho é o coroamento de uma iniciativa que o governo britânico e a ANDI vêm desenvolvendo já há algum tempo, que consiste em estimular a imprensa a cobrir mais e melhor o tema das mudanças climáticas. Antes do portal, lançamos uma análise de mídia que apontava o estado da arte da cobertura jornalística nessa área, e o site vem reforçar a necessidade, identificada na pesquisa, de uma melhor contextualização do tema, uma visão de conjunto que permita à sociedade construir respostas efetivas a esse fenômeno planetário", observa o diretor executivo da ANDI, Veet Vivarta.

Mini-oficina com o pesquisador José Alexandre Diniz Filho (UFG)

Aproveitando uma breve passagem por Manaus, o Dr. José Alexandre Diniz Filho foi convidado por William Magnusson para discutir com alunos e pesquisadores do Inpa temas relacionados à ecologia espacial.

O pesquisador José Alexandre Diniz Filho (foto), da Universidade Federal de Goiás (UFG), esteve em Manaus e se reuniu no dia 22 de novembro com pesquisadores e estudantes do PPBio para discutir problemas espaciais na análise de dados ecológicos. José Alexandre participou de um bate papo sobre alguns projetos em andamento na Amazônia dentro do escopo dos programas GEOMA (Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia) e PPBio (Programa de Pesquisa em Biodiversidade), indicando possíveis direções científicas a serem tomadas.

Nesta "mini-oficina", ele falou rapidamente sobre o problema de
autocorrelação espacial em ecologia, explicando como dados autocorrelacionados podem gerar modelos e conclusões precipitadas, possivelmente errôneas. Após apontar os principais problemas, ele fez uma rápida discussão sobre os principais métodos utilizados para tratar a autocorrelação espacial.

Os métodos mais discutidos foram os "
filtros espaciais" e os "modelos autorregressivos simultâneos". Os filtros espaciais são gerados a partir de uma matriz de conectividade, da qual se extrai os autovetores que são usados como filtros espaciais. Já os modelos autorregressivos adicionam no modelo um termo autorregressivo que é capaz de capturar o efeito espacial. Em ambos métodos a questão que mais gera duvidas é em que parte do modelo a parte espacial da análise irá atuar.

O Dr. Diniz Filho mostrou que existem basicamente 3 formas de inserir o espaço no modelo. A primeira forma visa remover a autocorrelação na variável resposta, contudo o espaço começa a se confundir com o ambiente. Uma segunda forma é inserir o espaço tanto na variável resposta quanto na variável preditora (ambiental). Por fim, a terceira forma visa atuar diretamente nos resíduos do modelo não espacial, diminuindo a interferência do espaço no componente ambiental.

Existe um grande
problema conceitual e estatístico nas análises ecológicas e, para um bom entendimento dos processos ecológicos que geram a distribuição de espécies, é preciso saber como separar efeitos ambientais dos efeitos espaciais. A visita do Dr. Diniz Filho foi importante porque proporcionou uma orientação conceitual sobre os projetos dos alunos do Inpa, favorecendo intercâmbio de experiências entre pesquisadores locais e um dos grupos mais expressivos em Macroecologia no Brasil.

Para conhecer mais sobre o grupo de trabalho do pesquisador José Alexandre Diniz Filho, visite:
http://www.ecoevol.ufg.br/laboratorios/lets/

Publicado originalmente no Portal PPBio.

1 de dezembro de 2008

Fernando Fernandez: A tal da sustentabilidade

[Fonte: O Eco, 14/11/2008]

Nem sempre assim é, mesmo se lhe parece.
Parafraseando William Shakespeare, em “As you like it”


Não, não adianta: você não pode escapar de ler ou ouvir a palavra “sustentabilidade”, ainda hoje, em algum lugar.

Poucas palavras, hoje em dia, estão tão na moda quanto sustentabilidade. Ela é repetida à exaustão - seja nos jornais, na TV ou na internet; seja nos discursos dos políticos ou nos anúncios das mais variadas empresas. Pode-se dizer que “sustentabilidade” é quase um mantra dos nossos tempos pós-modernos.

Podemos traçar a origem da popularidade da palavra “sustentabilidade” ao conceito de “desenvolvimento sustentável”, definido formalmente pela primeira vez no Relatório Brundtland em 1987 como “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias”. Esse conceito tornou-se imensamente popular nas últimas décadas, como a panacéia que permitiria conciliar o desenvolvimento com a necessidade cada vez mais óbvia de não destruir a própria base de recursos da qual o desenvolvimento dependia. A palavra sustentabilidade, embutida no conceito, tomou então conta da mídia. Toda hora fala-se que esse ou aquele recurso natural está sendo explorado de forma sustentável.

À primeira vista podemos pensar que isso é ótimo. Devemos então estar cercados de práticas de exploração sustentável de recursos naturais, permitindo manter os tais recursos para as gerações futuras. Ah, sim, claro, conservando a natureza também.

Será?

Nos últimos anos, vários pesquisadores têm estudado a questão de se algumas explorações de recursos naturais apresentadas como sustentáveis de fato o são. Um deles foi o paraense Carlos Peres, que com vários colaboradores estudou se era ou não sustentável a exploração da castanha-do-Pará. Na natureza, esses frutos da castanheira (
Bertholletia excelsa) são abertos por cutias. As cutias muitas vezes enterram as sementes para consumi-las depois, mas são uns roedores desmemoriados que muitas vezes esquecem onde enterraram as sementes, que então germinam. Hoje o florescente mercado internacional para as chamadas “Brazil nuts” tem deixado pouca coisa para as cutias. A exploração da castanha-do-Pará por populações locais na Amazônia tem sido frequentemente apontada como um exemplo de exploração sustentável – uma das “jóias da coroa” do governo Lula no que se refere ao “uso sustentável” de recursos naturais.

O estudo de Peres e seus colegas foi publicado na Science, a mais prestigiosa revista científica do Mundo (Science, 302: 2112-2114, 2003). Foi um estudo muito amplo. Em nada menos que vinte e duas localidades espalhadas pela Amazônia - a maioria delas no Brasil, mais algumas no Peru e na Bolívia - os autores mediram todas as castanheiras maiores que 10 cm DAP (Diâmetro à Altura do Peito). As árvores jovens, ou seja, as que ainda não produzem frutos, são aquelas com DAP menor que 60 cm. É, castanheiras são árvores bem grandes. O estudo comparou a freqüência de árvores jovens em localidades com diferentes antiguidades e intensidades de exploração.

Os resultados foram claros e perturbadores. A proporção de árvores jovens variava de 31 a 76% nas cinco localidades onde não havia exploração de castanhas-do-Pará. Caía para 10,6 a 47% nas dez localidades pouco exploradas, e para 3,8 a 25% nas cinco localidades moderadamente exploradas. Já nas três localidades persistentemente exploradas, a proporção de castanheiras jovens caía para ínfimos 0,7 a 1,6% - dezenas de vezes mais baixa que a proporção normal. Pior, em uma dessas três localidades as poucas castanheiras jovens eram rebrotamentos de árvores quebradas por ventos, as quais não se reproduzem mais. Ou seja, as populações exploradas tendem a ser populações velhas, com poucas árvores jovens.

A conclusão de Peres e seus colaboradores resume tudo com perfeição: “a mensagem clara é que as práticas de coleta de castanha-do-Pará
não são sustentáveis a longo prazo”. Por algumas décadas, a produção pode até ser mantida porque as castanheiras vivem e frutificam por muito tempo. Mas depois que as árvores adultas de hoje morrerem nas áreas exploradas, não há quase árvores jovens vindo depois para substituí-las. Ou seja, a segunda e tranquilizadora parte da definição de sustentabilidade, “sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias [necessidades]” acabava de ir para o espaço.

Num estudo mais recente, também na Amazônia, Plinio Sist e Fabrício Nascimento, dois pesquisadores da EMBRAPA, analisaram a sustentabilidade da chamada “exploração madeireira de baixo impacto” (“reduced impact logging” ou RIL) (
Forest Ecology and Management, 243: 199-209, 2007). RIL é uma técnica pela qual apenas as árvores acima de um certo diâmetro, das espécies comerciais, são retiradas, deixando as demais árvores no lugar. A área estudada, na Fazenda Rio Capim, em Paragominas (Pará), era explorada pelo grupo CIKEL – Brasil Verde. Um detalhe muitíssimo importante, a “sustentabilidade” da exploração na Fazenda Rio Capim é certificada pelo FSC (“Forest Stewardship Council”), a mais tradicional e exigente entidade internacional que fornece selos verdes para companhias de exploração madeireira no Mundo.

Sist e Nascimento fizeram um planejamento experimental cuidadoso, e coletaram uma imensa quantidade de dados. Antes do corte das árvores, utilizaram duas linhas de amostragem, cada uma incluindo nove áreas amostrais de 100 x 100 metros cada. Em cada área, identificaram e mediram nada menos que todas as árvores com DAP igual ou maior que 20 cm – um trabalho hercúleo. Depois da extração das árvores comerciais, verificaram quantas das restantes árvores da floresta haviam sido mortas ou danificadas por esse processo. Além disso, usando dados sobre o crescimento das árvores, calcularam quanto tempo as árvores comerciais levariam para repor o estoque que havia sido retirado. Um ciclo de 30 anos – ou seja, 30 anos entre extrações sucessivas de madeira da mesma área – é o recomendado por lei na Amazônia brasileira.

Novamente os resultados foram perturbadores. Sist e Nascimento estimaram que apenas metade do estoque das madeiras comerciais poderia ser reposto após o ciclo “legal” de 30 anos. Ou seja, novamente a exploração dita sustentável na verdade não é sustentável, pela própria definição. Pior que isso, é preciso olhar também a questão da conservação ou não da floresta como um todo. Os dois pesquisadores encontraram que em média nada menos que 13,9% das árvores restantes de cada área haviam sido mortas, mais 6,7% danificadas com diferentes graus de severidade, durante a extração das árvores comerciais. A abertura do dossel – ou seja, as “falhas” na continuidade do topo da floresta – tinha duplicado a triplicado. Em resumo, trata-se de uma exploração de recursos que não permite manter os níveis desses recursos para as gerações futuras, e além disso causa um dano considerável à floresta. Olhe bem que a CIKEL tem sido considerada um dos melhores exemplos de bom manejo florestal - imagine as outras companhias. Sist e Nascimento foram ainda mais além e apontaram que a não-sustentabilidade que eles verificaram não era em absoluto um resultado isolado, mas sim similar ao de outros estudos desenvolvidos no sudeste da Ásia.

Os estudos que discuti são apenas dois, e pode-se perguntar se são apenas exceções a uma suposta regra geral de explorações de fato sustentáveis. Pode até ser, mas não tenho muita esperança disso. De qualquer forma, eles mostram, no mínimo, que alguns dos casos apontados como sendo de exploração sustentável na verdade não o são.

Desculpe, meu caro leitor, se bombardeei você com tantos resultados de demografia. Você tem razão, demografia – o estudo das populações – pode ser um pouco árido às vezes. Tentei colocar tão poucos tediosos números quanto consegui. Mas acredite, os que coloquei foram por uma boa causa. Foram para mostrar que aquilo que um tecnocrata chama de “recurso natural” eu chamo de “população biológica”.
Qualquer uso de uma população de animais ou de plantas só pode ser sustentável se as entradas de indivíduos para a população (i.e., nascimentos e imigração) continuarem compensando, em longo prazo, as saídas (i.e. mortes e emigração). Como saber isso? Estudando a população em questão. Simples assim. Se uma dada exploração é sustentável ou não, isso é uma questão técnico-científica, fundamentalmente demográfica, que precisa ser respondida com a aplicação de boa ciência. Tudo isso deveria ser o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas no nosso Mundo de hoje, onde esse assunto tem sido tão abusado pela ideologia e pela propaganda, às vezes é necessário dizer o óbvio.

Você pode ter notado que tanto o estudo de Peres e colaboradores como o de Sist e Nascimento foram a
posteriori, ou seja, visaram analisar a sustentabilidade ou não de uma exploração que já existia e que, em ambos os casos, era dita sustentável. É claro que seria desejável ter estudos a priori, ou seja, testar se a exploração de um dado recurso natural é de fato sustentável antes de autorizá-la. Onde estão os estudos a priori? Pode até haver alguns, mas são raríssimos. Noventa e seis por cento das reservas extrativistas brasileiras não têm sequer plano de manejo, quanto mais avaliação de sustentabilidade. Ora, então, a pergunta que não quer calar é: se quase não há estudos a priori, por que a gente ouve falar que tantas atividades são sustentáveis?

Por uma razão muito simples: porque na grande maioria das vezes a palavra sustentabilidade não tem sido usada em seu sentido real. Quando um empresário diz que sua empresa é sustentável, na maioria das vezes o que ele realmente está dizendo é “estou tendo cuidado com as questões ambientais”. Quando alguém de uma associação extrativista diz que uma exploração é sustentável, de modo geral o que ele realmente está dizendo é que “nossa atividade é menos destrutiva que outros usos da terra que poderiam ser feitos aqui”. Tanto uma afirmação como a outra podem muito bem estar corretas - ou não, dependendo do caso. Mas nem uma coisa nem outra quer dizer, necessariamente, que as atividades em questão sejam sustentáveis. Isso vale para ambos os sentidos que mencionei aqui – tanto o sentido de fornecer recursos para as gerações futuras, como o sentido da demografia da própria espécie explorada.

Tomando por exemplo a própria castanha-do-Pará, pode ser verdade que explorar castanheiras tenha menos impacto que derrubar tudo e criar bois, mas nem por isso a exploração da castanha será sustentável. Caso não seja, isso trará a ruína não só da população biológica explorada, mas também das populações humanas estimuladas a depender de um recurso que não está conseguindo se renovar. Sustentabilidade ilusória não é bom para ninguém, muito menos para quem depende dela. Já ouvi o argumento “Ah, sim, mas até lá eles já vão estar usando outro recurso”. Isso, claro, depois da população explorada originalmente ter sido dizimada. Ei, peraí, que diabo de sustentabilidade é essa?

A demografia, ou seja, o estudo das populações naturais, é um dos temas centrais da ciência fascinante, mas tão mal compreendida, que é a ecologia. A ecologia é a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com seu ambiente. Tem sido confundida com uma de suas aplicações, ou seja, os problemas ambientais.
Mas há hoje uma forte ecologia acadêmica no Brasil, uma das melhores do Mundo, com muitos excelentes profissionais. Por que raramente se chama algum deles para avaliar a verdadeira sustentabilidade de alguma coisa, antes de se sair dizendo por aí que é sustentável? De um ponto de vista otimista, talvez seja por desconhecimento de que há por aí gente capacitada a avaliar essas coisas. De um ponto de vista mais pessimista, também pode ser porque quem diz, no fundo, muitas vezes não está interessado na resposta.

Isso pode parecer um detalhe de pouca importância para a conservação. Mas não é. Muito da popularidade da palavra sustentabilidade vem do fato de que ela soa tão bem. Antes de mais nada, claro, diz o que todos nós queremos ouvir. Depois, parece tão técnica que quem ouve geralmente supõe que para alguém estar dizendo isso, certamente deve haver profundo conhecimento técnico por trás para embasar. Por isso mesmo sustentabilidade, se mal usada, é uma palavra muito perigosa. É a chave mágica que abre todas as portas para exploração de populações biológicas em áreas que de outra forma seriam protegidas. É a base filosófica de todo um gigantesco paradigma no qual se assenta a atual política “ambiental” brasileira. Nunca antes na história desse país se demarcou tantas “reservas de desenvolvimento sustentável”, em muitos casos sem se fazer a mínima idéia se a exploração estimulada com o nosso dinheiro é de fato sustentável. Se tudo isso for um gigante de pés de barro, estamos em maus lençóis.

Sustentabilidade, palavra perigosa: use com cuidado. Usar levianamente um conceito de tal importância é desastroso para as gerações futuras da própria definição, assim como para a conservação da biodiversidade. Como qualquer outra pessoa preocupada com o bem estar social da humanidade, adoraria ser convencido que qualquer utilização de recursos naturais seja de fato sustentável. Mas para isso é preciso ter argumentos convincentes que o demonstrem, não basta presumir que algo é sustentável só porque gostaríamos que assim fosse.

Washington Novaes: a visão da sociedade e o futuro amazônico

Por onde se caminhará na Amazônia para evitar que o bioma chegue ao desmatamento em 50% de sua área e perca a capacidade de se regenerar, como advertiu o cientista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e Herton Escobar relatou neste jornal [O Estado de São Paulo, em 21/11]? Vários fóruns em Manaus discutiram esse tema nas últimas semanas. E um sumário das discussões permitiria enfatizar muitos pontos:

O Brasil não tem estratégia para a Amazônia. Não há recursos para implantar o cadastro fundiário (só 4% das terras são registradas), monitorar o território, fiscalizá-lo e impedir o desmatamento ilegal: o Ministério do Meio Ambiente só tem cerca de 0,5% do Orçamento federal.

Não há "transversalidade" na política federal, cada Ministério cuida de seus interesses específicos - enquanto isso, já há ali mais de 70 milhões de cabeças de gado e cerca de 20% do bioma foi desmatado para a expansão agropecuária e extração ilegal de madeira (mais de 150 mil km2 só de 2000 para cá).

"Reserva legal" em cada propriedade é apenas ficção. Os gastos federais no bioma não passam de 4,05% do total, enquanto a
população amazônica supera 12% da população brasileira

A região continua a ser receptora de mão-de-obra desempregada em outras partes.

Continuam sem resposta as objeções de cientistas à lei que permite concessão de terras públicas para "manejo" por empresas (países que entraram por esse caminho perderam suas florestas).

Seria possível destacar muito mais pontos, mas não é necessário, o tema tem sido muito tratado. Talvez seja interessante salientar algumas discussões por outros ângulos, que ocorreram durante o recente
Simpósio de Cultura e Natureza na Amazônia, parte do Festival Literário Internacional da Floresta, na parte que tratou especificamente de "desenvolvimento e natureza na Amazônia".

Era inevitável que se falasse ali do tema da "ameaça de internacionalização da Amazônia". Vários conferencistas lembraram, entretanto, que de certa forma essa "internacionalização" já ocorre, uma vez que grande parte das mais importantes atividades econômicas no Estado está voltada para interesses externos - a exportação de madeira, soja e carne para países que não querem arcar com os custos socioambientais dessas atividades (que são pesados); a exportação de ferro-gusa e alumínio, que têm altíssimo custo ambiental e energético (em grande parte subsidiado e transferido para a conta de toda a sociedade brasileira); a Zona Franca para empresas de outros países; o comércio de minérios - para só citar alguns. Pode ser interessante, entretanto, colocar o foco sobre a questão da falta de uma "identidade amazônica" (decisiva durante séculos para a conservação da floresta), que dificulta a formulação de uma estratégia competente e necessária. Vale a pena começar, aí, por uma intervenção do sociólogo e poeta
João de Jesus Paes Loureiro, autor de vários livros sobre a realidade cultural amazônica, para quem "o imaginário popular é uma visão de progresso social", com sua "crença em vidas possíveis".

"O caboclo", diz ele, "é um viajante imóvel: busca conhecimento, significado, na profundidade, não na distância" - mas só é visto como pitoresco, folclorizante. E essa "lacuna de interpretação leva ao risco de perda desse tesouro da cultura amazônica". De fato, como chegar a uma estratégia amazônica que não passe pela visão popular, social? O professor Narciso Lobo trafegou pela mesma senda: "Precisamos nos inventar mais uma vez." Com a dificuldade trazida pelas visões tecnológicas, que "encobrem a realidade".

Já o escritor
Márcio Souza (Mad Maria e Galvez, Imperador do Acre, entre outros livros) enfatizou que "não construímos o relato do passado" - um passado muito rico, já que a Amazônia, antes dos muitos massacres pelos colonizadores que sofreu, era povoada por milhões de indivíduos, a começar pelos índios. "Se jogarmos uma agulha para o alto" - o escritor citou o historiador João Daniel, do século 17 - "ela cairá na cabeça de um índio." Mas onde está o relato desse tempo, dessa vivência, de sua resistência à ocupação, dos caminhos pelos quais influenciou a possível identidade amazônica e a preservação da floresta? Como "aprender com essa cultura a não destruir o meio ambiente?" Sem essa cultura não haverá Amazônia, afirma o escritor. Só restará folclore, que é "o que resta da cultura popular depois que a polícia passa".

Certamente por causa da ausência dessa cultura, continua-se a falar em "desbravar a floresta", observou o ex-secretário de Meio Ambiente da Amazônia
Virgílio Viana. E a conceder crédito público a quem desmata uma floresta que existe há pelo menos 1.500 anos, como lembrou o professor Niro Higuchi, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ao tratar dos riscos que o desmatamento da Amazônia traz para a área do clima, se liberar o imenso volume de carbono seqüestrado pelas árvores.

Pode-se concluir com o raciocínio do professor
Charles R. Clement, também do Inpa, em texto inédito: "Manter a floresta em pé e garantir crescimento sustentável é uma equação que nós, Homo sapiens agricola, não sabemos decifrar. Isso nunca foi necessário ao longo da expansão de nossa subespécie. Não evoluímos para isto. (...) Chegamos ao século XXI convencidos de que podemos tudo." Mas, "se continuarmos a ser apenas modernos, não temos futuro. A solução não é ser pós-moderno. (...) O futuro da Amazônia e da nossa espécie depende de uma evolução sociocultural nova: a transformação de Homo sapiens agricola em Homo sapiens sustentabilis, em menos de uma década" (o tempo que a ciência nos dá para enfrentar as mudanças climáticas e o consumo insustentável).

É um desafio imenso, que não se resolverá na Amazônia sem incorporar a visão da sociedade, e não apenas a visão econômica e tecnológica.