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19 de dezembro de 2009
Paul Stamets: Como os fungos podem salvar o mundo

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16 de julho de 2009
Assista à entrevista com Adalberto Val no Roda Viva
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6 de julho de 2009
Roda Viva com Adalberto Val - 06/07/09
Boa parte da região ainda é desconhecida do mundo. Cientistas exploram a Amazônia e descobrem todos os anos novas espécies enquanto lutam para encontrar um meio sustentável para a exploração.
O desafio atual é permitir o desenvolvimento científico e econômico amazônico sem agredir o meio ambiente.
Adalberto Val é diretor do INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, órgão criado em 1952 e implementado em 1954 para realizar o estudo científico do meio físico e das condições de vida da região amazônica, além de gerar e disseminar conhecimentos e tecnologia, e capacitar recursos humanos para o desenvolvimento da Amazônia.
Participam como convidados entrevistadores:
Darlene Menconi, jornalista de sustentabilidade; Randau Marques, jornalista especializado em ciência e tecnologia, um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, fundador da SOS Mata Atlântica e da Oikos, União dos Defensores da Terra; Washington Novaes, jornalista, supervisor do programa Repórter Eco; Fábio de Castro, editor da Agência Fapesp.
Apresentação: Heródoto Barbeiro
Transmissão pela Internet, ao vivo, a partir das 17:30.
O Roda Viva é apresentado às segundas a partir das 22h10.
http://www2.tvcultura.com.br/rodaviva
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12 de fevereiro de 2009
Entrevista com Dilma Rousseff sobre as hidrelétricas na Amazônia
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30 de janeiro de 2009
Entrevista com David Attenborough sobre Darwin e a Bíblia
Eu só discordo de uma coisa do David: o maior organismo do planeta é um fungo (Armillaria ostoyae, que cobre 900 hectares!!!) e não a baleia-azul (Balaenoptera musculus). Essa pode ser o maior animal!
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16 de janeiro de 2009
Entrevista com Fernando Figueiredo: como foi seu mestrado em ecologia no Inpa?
Quem planeja um projeto ambicioso, sabe que inevitavelmente expõe-se a algum risco, pois há pouco tempo para conduzi-lo dado os prazos da pós-graduação vigentes no Brasil. Muitos estudos em ecologia implicam em uma fase de campo intensa, quando o pesquisador tem a chance de coletar informações inéditas sobre algum grupo biológico e/ou área geográfica.
Para os desavisados, o projeto de mestrado de Fernando Figueiredo (foto) poderia parecer ousado demais. Entretanto, a categoria com que desenvolveu seu estudo, na Coordenação de Pesquisas em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), é digna de reconhecimento, sendo um exemplo bastante estimulante para futuros projetos em ecologia na região. Ele foi orientado por Flávia Costa, recém contratada pelo Inpa, e trabalhou com um grupo de plantas herbáceas da ordem Zingiberales, que inclui espécies importantes para a economia local, como o arumã (Ischnosiphon spp.) e as helicônias (Heliconia spp.). Do ponto de vista acadêmico, as plantas herbáceas têm grande aplicação em estudos de impacto ambiental (EIA's) e estudos focados em conservação biológica.ULE - Quais foram os principais resultados encontrados na sua pesquisa? Fernando Figueiredo - O primeiro diz respeito ao padrão de variação de riqueza. Encontrei uma relação positiva entre riqueza de espécies e clima, ou seja, tem mais espécies de Zingiberales onde chove mais e a estação seca é menor. Esse era um padrão já esperado e encontrado também para árvores na Amazônia. No entanto, em alguns sítios o número de espécies é maior que o esperado, isso devido a alta variabilidade de fertilidade do solo presente no sítio. Como foi no caso da REBIO do Uatumã, que apresentou tanto espécies de solo pobre como também as espécies de solo um pouco mais fértil, condição encontrada apenas neste sítio. Temos aqui um caso da diversidade beta local afetando a diversidade alfa regional. No segundo objetivo tentei entender um pouco sobre os fatores que afetam a variação florística, numa resolução fina, ao nível de parcelas. A principal variação na composição de espécies esteve associada com o gradiente climático conjuntamente com o gradiente geográfico, ou seja, da Amazônia Central para a Setentrional. A fertilidade do solo teve um papel importante na mudança de composição do grupo, principalmente na REBIO do Uatumã. Observamos neste sítio uma abrupta mudança de composição de espécies associada à fertilidade do solo. Nesta região provavelmente se encontram as manchas de solo mais férteis da região central da Amazônia, derrubando o mito de que na Amazônia Central não existe solos férteis. Eles não só existem como também afetam fortemente a mudança na composição de espécies. Um fato curioso: provavelmente grande parte destas manchas de solo fértil foi alagada após a construção da represa de Balbina, uma grande catástrofe ambiental na Amazônia. Por fim, investiguei o efeito do método de análise empregado em estudos de variação florística. Os principais padrões de variação florística não foram afetados pelo método, o que é muito bom, pois os resultados não aparentam ser um artefato da análise. No entanto, ao adotar um método de ordenação não-linear consegui explicar muito mais variação nos dados comparando com a variação explicada pelos métodos clássicos de ordenação. Isso indica que talvez temos que buscar formas diferentes e não lineares de medir a diferença florística entre dois locais.
ULE - Quais os benefícios de se estudar a variação na composição florística? Fernando Figueiredo - O estudo da variação espacial da composição florística, ou diversidade beta, como é conhecida entre os ecólogos, pode nos trazer informações importantes sobre os processos que atuam nos sistemas ecológicos e, principalmente, pode nos ajudar a definir áreas estratégicas para conservação. Acho que a palavra chave aqui é variação, no sentido de se focar nas diferenças entre os locais (habitats, manchas de florestas, regiões biogeográficas, etc.) e tentar entender o que afeta a magnitude destas diferenças. Pensando em áreas estratégicas para conservação, onde um dos objetivos é tentar maximizar o número de espécies presentes nestas áreas, o estudo das diferenças de composição entre locais pode auxiliar na identificação de áreas que contém conjuntos complementares de espécies, ou seja, que maximizam o número de espécies representadas nestas áreas. Quanto maior as diferenças florísticas entre dois lugares, mais atrativos eles são para conservação. O estudo da variação florística representa também a base para a definição de tipos de vegetação, onde se espera que a variação na composição de espécies dentro do mesmo tipo vegetacional seja menor que a variação entre tipos de vegetação distintos. Na Amazônia, qualquer pessoa pode identificar que uma campina ou uma área de lavrado são bem diferentes em termos de composição de espécies de uma área de floresta de terra firme. Por outro lado, uma pessoa fazendo um sobrevôo sobre a floresta pode imaginar que ela é homogênea. No entanto, quando vamos a campo e coletamos dados percebemos que existe muita variação florística de composição dentro do mesmo tipo vegetacional, que chamamos de terra firme. Parte desta variação está associada com fertilidade do solo, topografia, clima e na Amazônia, devido a sua ampla extensão geográfica, a fatores históricos / biogeográficos.
ULE - Como você vê a contribuição do PPBio na Amazônia? Fernando Figueiredo - Muito positiva, principalmente pelo fornecimento da infra-estrutura de acesso e permanência nos sítios de coleta. Acho que o PPBio vem cumprindo bem seu papel de programa de pesquisas, permitindo que vários estudos se desenvolvam em diferentes regiões da Amazônia e que a base de dados acumulada por diferentes estudos seja utilizada. Acredito que num futuro próximo o programa deva investir em alguns aspectos como: na melhoria do acesso e disponibilidade do banco de dados, o que já vem sendo trabalhado pela equipe do PPBio; a abertura de novos sítios buscando um delineamento em grande escala espacial para responder questões biogeográficas; a inclusão de sítios de amostragem em outros ambientes, como várzea, igapó, campina; e por fim a realização de estudos em ambientes com ocupação humana, como RESEX e RDS's, e espécies de interesse econômico, buscando influenciar e direcionar políticas públicas regionais.
ULE - Você acha que o sistema de amostragem que o PPBio adotou (sistema RAPELD) é adequado para estudos em grandes escalas espaciais? Fernando Figueiredo - Acho que o RAPELD tem um bom potencial para estudos em grandes escalas espaciais. O problema de estudos desta natureza é que envolvem amplas extensões geográficas e ainda não temos uma boa cobertura de coleta. No entanto, vários projetos na região vem adotando o sistema RAPELD e acho que ao integrar estes esforços conseguiremos ter uma boa cobertura de coleta na Amazônia brasileira em pouco tempo. Com o RAPELD, é possível adotar tanto as parcelas como unidades amostrais (resolução fina), quanto o próprio transecto (resolução grossa). Pensando em plantas e pequenos organismos, os dados obtidos na resolução fina fornecem uma boa estimativa de variabilidade local. No meu caso essa variabilidade interna afetou o padrão em grande escala, ou seja, observamos um efeito da diversidade beta dentro do sítio afetando o padrão de riqueza entre os sítios. Sem este olhar mais fino não conseguiríamos encontrar este efeito.
ULE - Como foi o processo de identificação das plantas? Fernando Figueiredo - Como falei anteriormente, essa foi uma das dificuldades. No entanto, o processo de contagem e morfotipagem de todos os indivíduos dentro da parcela foi um ótimo exercício de aprendizagem de identificação e, no meu caso, o mais importante, de diferenciação das espécies. No decorrer do trabalho percebemos que ainda existem alguns nós taxonômicos por parte de alguns grupos dentro da ordem, além de alguns equívocos de identificação na literatura especializada e no material encontrado no herbário do INPA. Graças à ajuda de dois botânicos, a Dra. Helen Kennedy, canadense especialista em Marantaceae e o holandês Paul Maas, especialistas nas outras famílias da ordem, conseguimos identificar até o nível de espécie pouco mais de 2/3 do material. Este número ainda não é o desejável. Por outro lado, ele traz à tona um aspecto importante, que é a falta de conhecimento taxonômico, ou seja, conhecimento básico, que ainda temos sobre a biodiversidade amazônica. A falta de botânicos especializados na flora amazônica, principalmente profissionais brasileiros, tem contribuído fortemente com este quadro. Outra carência é a ausência de guias de campo, que permitem uma identificação mais rápida das espécies em campo, diminuindo o tempo de certas pesquisas ecológicas. Agora um fato curioso: esperávamos encontrar novas espécies principalmente nas áreas com histórico de pouco esforço de coleta, como nas áreas da BR-319 e no PARNA do Viruá. Encontramos sim uma espécie de Marantaceae provavelmente não descrita na BR-319, mas também ela foi encontrada na Reserva Ducke e na reserva do Cabo Frio, no PDBFF, dois dos sítios com os maiores esforços de coleta na Amazônia Central. Uma surpresa para nós. Ou seja, para alguns grupos é ainda necessário refinar o conhecimento mesmo para aquelas áreas onde pensamos que já estão bem estudadas.ULE - O que poderia ser feito para melhorar as condições de fixação de jovens pesquisadores na Amazônia, principalmente os mestres recém-formados? Fernando Figueiredo - Acho que muitas pessoas gostariam de ficar e trabalhar na Amazônia, mas o que me parece que pesa nesta decisão são os problemas de infra-estrutura da cidade de Manaus (moradia, saúde, transporte, internet e serviços em geral), a distância da família e a falta de um cenário de estabilidade financeira, que se resolve com contratação efetivamente e não com bolsa, pelo menos no valor que é pago. Acho que isso já vem sendo discutido no âmbito do MCT e algumas ações vêm sendo tomadas. Recentemente foi aprovada a criação de 4 novos institutos de pesquisa no Estado do Amazonas. Isso deve aumentar o volume de contratações de pesquisadores num futuro próximo. Espero estar entre eles!

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15 de janeiro de 2009
Ecoturismo: entrevista com Helio Hintze (ESALQ) sobre a utilização do prefixo 'eco'
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10 de janeiro de 2009
Estimativas de biomassa no arco do desmatamento: madeira menos densa implica em menor emissão de carbono
Calcular a biomassa presente em uma floresta é fundamental para estimar a quantidade de carbono que seria emitida em caso de queimada e, consequentemente, para fazer avaliações ambientais e atribuir valor à floresta em pé. Mas, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), as equações utilizadas para fazer esses cálculos têm distorcido os dados na região do arco do desmatamento na Floresta Amazônica, superestimando sua biomassa.
Coordenado por Philip Martin Fearnside, o trabalho foi realizado por Euler Melo Nogueira, Bruce Walker Nelson, Reinaldo Imbrozio Barbosa e Edwin Willem Hermanus Keizer. Os resultados foram publicados em setembro na revista Forest Ecology and Management. O artigo está entre os mais consultados da publicação desde então.
Os resultados mostram que a emissão de gases de efeito estufa proveniente da queima de biomassa florestal na Amazônia é bem inferior ao que se pensava. A estimativa de biomassa é feita com o auxílio de um modelo alométrico: uma equação matemática que relaciona algumas variáveis das árvores, como o diâmetro e a altura, com a biomassa. Mas essas equações, feitas com base nas características da floresta densa, não funcionam bem, segundo Fearnside, quando aplicadas à floresta aberta do arco do desmatamento – que corresponde a um terço da Amazônia e gera 80% das emissões por desmatamento.
As novas equações alométricas criadas pelos pesquisadores, mais adequadas à realidade da floresta aberta, indicam que a floresta emite anualmente 24 milhões de toneladas de carbono a menos do que se imaginava.
Agência FAPESP – O grupo do Inpa coordenado pelo senhor desenvolveu recentemente novas equações alométricas que permitem realizar estimativas mais precisas da biomassa da floresta no arco do desmatamento. O que havia de errado com as equações usadas até agora? Philip Fearnside – O problema dos cálculos feitos até agora é que eles se baseiam na extrapolação de dados obtidos exclusivamente na Amazônia central. Até hoje, todos os dados são das regiões de Manaus, Belém e de áreas de florestas densas perto do rio Amazonas. Mas no arco de desmatamento o que existe é um outro grupo de florestas, a floresta aberta.
Agência FAPESP – Trata-se de que tipo de dados? Fearnside – Dados como a densidade de madeira, forma e altura das árvores. Na falta desses dados, para calcular a biomassa no arco do desmatamento eram usadas equações com base nas áreas da Amazônia central. O inventário brasileiro sobre as emissões de carbono, por exemplo, utilizou equações que foram feitas aqui em Manaus, para florestas densas, e aplicou ao arco do desmatamento.
Agência FAPESP – E essa extrapolação dos dados induzia a erro? Fearnside – Sim, foi uma coisa que descobrimos em pesquisas anteriores: as árvores de lá são mais leves do que as da Amazônia central. A madeira é menos densa e, portanto, tem menos biomassa.
Agência FAPESP – Os cálculos feitos até agora estavam superestimados? Fearnside – Sim. O procedimento normal para as estimativas de biomassa começa ao se medir as árvores grandes de diversas parcelas de floresta. Com a equação alométrica, essas medidas são convertidas em volume de madeira. Para calcular a biomassa, multiplica-se o volume pela densidade. A partir daí se pode calcular a quantidade de carbono da floresta para estimar qual será a quantidade de emissões em caso de desmatamento. Mas, se a madeira é mais leve, com o mesmo volume de madeira temos menos biomassa e menos emissões.
Agência FAPESP – Quando se descobriu que as árvores da floresta aberta são mais leves do que as da Amazônia central? Fearnside – Em pesquisas feitas desde 1997 mostrávamos que as espécies mais leves apareciam com mais frequência no arco do desmatamento. O que descobrimos agora é que as árvores da mesma espécie também são mais leves por lá. Além disso, o teor de água na madeira é maior do que na área de floresta densa. Quando a madeira é mais leve, ela contém mais água. Então, quando se multiplicavam os valores por uma constante, para extrair o peso certo, sempre se usavam dados da área de Manaus. Além disso, observamos que as árvores de diâmetro semelhante nas duas regiões são mais curtas na área de floresta aberta. Tudo isso contribuiu para um grande exagero nas estimativas de biomassa.
Agência FAPESP – Qual foi a magnitude desse exagero? Fearnside – Cada fator desses que mencionei acrescenta uma redução de biomassa e, quando se soma tudo, a diferença é gritante. No caso do desmatamento de 2004, por exemplo, quando houve um pico de desmatamento de 27,4 mil quilômetros quadrados desmatados em um ano, a diferença de cálculo é de 24 milhões de toneladas de carbono. E é preciso lembrar que a parte mais considerável dessa devastação se deu no arco do desmatamento e, portanto, essa diferença se aplica.
Agência FAPESP – Os cálculos feitos até agora, então, estavam completamente errados? Fearnside – Sim, estavam errados. Houve um exagero considerável: 24 milhões de toneladas de carbono em um ano equivalem ao triplo das emissões na cidade de São Paulo. É impressionante. Mas temos que encarar isso como o processo contínuo, normal, do melhoramento dos números da ciência.
Agência FAPESP – A pesquisa conclui que a emissão potencial de carbono é muito menor do que se imaginava. Isso prejudica de alguma forma a argumentação contra o desmatamento? Fearnside – Ao contrário, os argumentos contra o desmatamento se fortalecem, porque os cálculos estão mais corretos. Por acaso, os valores de emissões eram mais baixos do que os previstos. Mas o importante é ter certeza se os dados são ou não confiáveis. O fato de sempre haver muita incerteza é um dos principais argumentos para não dar valor à floresta. O resultado da pesquisa joga a favor da preservação. Não tenho a menor dúvida disso.
Para ler o artigo Estimates of forest biomass in the Brazilian Amazon: New allometric equations and adjustments to biomass from wood-volume inventories, de Euler Melo Nogueira e outros, clique aqui.
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3 de dezembro de 2008
Macroecologia: entrevista com Miguel Ángel Rodríguez (Univ. de Alcalá, Espanha)
[Fonte: Bafana Ciência, 11/03/08]
O que a Espanha tem? Além das touradas e do clássico “Barça e Real” a terra de Cervantes também produz Ecologia de primeira linha. O professor Miguel Ángel Rodríguez do Departamento de Ecologia da Universidade de Alcalá esteve no Brasil realizando uma série de trabalhos no Laboratório de Ecologia Teórica e Síntese – LETS da Universidade Federal de Goiás, onde gentilmente concedeu esta entrevista ao doutorando do NUPELIA (UEM- Maringá), Dilermando Pereira Lima Júnior. De forma muito descontraída, porém profunda, Miguel Rodríguez contou sobre sua formação, suas principais linhas de pesquisa, apontou tendências na Ecologia no século 21, terminando a entrevista com dicas para jovens ecólogos. Confira.
Você acredita realmente nos padrões Macroecológicos como importantes fatores atuantes na estruturação de comunidades locais? Uma vez que muitos artigos mostram uma baixa correlação entre a diversidade de variáveis de grandes escalas espaciais. Sim, eu acredito nos padrões. Quando observamos os mapas de riqueza em escalas continentais, creio que esses mapas refletem realidades biológicas. É certo que os mesmos são criticados por mostrarem uma distribuição de espécies que representam mais hipóteses de distribuição do que a distribuição real das espécies, porém estudos mostram que esses mapas são boas explicações da distribuição. Quando observamos os mapas de tamanho corporal das espécies e outros padrões macroecológicos, a mim parecem que esses mapas refletem realidades biológicas. Outra coisa são as análises que fazemos dos dados, que nos mostram correlações entre variáveis climáticas e históricas e nossas interpretações. Se as nossas interpretações são corretas ou não, isso está para ser visto. O fato é que algumas variáveis explicam grande parte da variância, de aspectos como riqueza de espécies em escalas continentais e globais. Podemos encontrar variáveis como evapotranspiração que descreve mais de 70 % de variação da riqueza de espécies de diferentes grupos taxonômicos. Porém, se essa variação é uma resposta biológica dos organismos à quantidade de energia e água, ou se são meras covariações, que escondem outros mecanismos por trás destes padrões, são questões ainda por responder. Na verdade é a grande pergunta. Encontramos correlações com variáveis ambientais, mas correlações não implicam em um mecanismo causal.
Sabemos que nosso planeta hoje se encontra numa crise ambiental, com enormes prejuízos à diversidade biológica. Em se tratando de conservação você acha que a Macroecologia pode contribuir com a Biologia da Conservação ou são áreas distintas de pesquisa? Sim. Por um lado o estudo da biogeografia nos ajuda a identificar pontos no globo com grande riqueza de espécies (os hotspots de biodiversidade), com grande número de espécies endêmicas e/ou espécies raras. Claro que tudo isso é uma informação útil para a biologia da conservação. Por outro lado, a macroecologia pode evidenciar como e quais os mecanismos que estão afetando a distribuição das espécies em grandes escalas, por exemplo, avaliando o impacto humano nestas escalas. Nos últimos duzentos anos temos modificado o planeta como nunca antes na história. Isto sem dúvida tem afetado os padrões biogeográficos, portanto, estudos que estão focados em estabelecer até que ponto o impacto humano influencia os gradientes de riqueza de espécies podem ser muito importantes para medidas de conservação.
Quais são os motivos que lhe trazem ao Brasil? O principal motivo é que por aqui há um grupo de pesquisadores como José Alexandre Diniz Filho, Luis Maurício Bini e Paulo De Marco Junior excepcionalmente bom no campo da Macroecologia, com uma capacidade de análise que chama atenção e é reconhecido por pesquisadores da área em todo o mundo. Vir ao Brasil, para mim é uma oportunidade para aprender e fazer análises mais refinadas. E não digo isso por estar no Brasil…

Qual é a sua dica para jovens ecólogos e pós-graduandos que estão se formando agora e ainda têm poucos artigos publicados? Diria duas coisas… Primeiro publique tudo que podem. Nessa primeira fase de formação de mestrado e doutorado o pesquisador tem que estar ciente que está aprendendo. É importante fazer bons trabalhos, acabá-los e continuar trabalhando. Se você está investigando perguntas importantes, ótimo, mas o mais importante nessa fase é aprender. Dessa forma, fazer trabalhos mais clássicos (ou “conservadores”) e publicá-los é importante. Com avançar da carreira creio que tem que haver uma tendência em prezar a qualidade. É normal que no inicio da carreira o estudante publique muito, mas com maturidade diminua o número de publicações e invista em artigos melhores, mais bem acabados e de maior calibre científico. Com o tempo não importa tanto o número de artigos, mas as questões que se investiga. Resumindo: durante o mestrado e doutorado tente publicar muito em boas revistas internacionais e mais adiante se livrar da obsessão de número artigos e se concentre em idéias importantes para publicar em revistas de ponta.
O que a Espanha tem? Além das touradas e do clássico “Barça e Real” a terra de Cervantes também produz Ecologia de primeira linha. O professor Miguel Ángel Rodríguez do Departamento de Ecologia da Universidade de Alcalá esteve no Brasil realizando uma série de trabalhos no Laboratório de Ecologia Teórica e Síntese – LETS da Universidade Federal de Goiás, onde gentilmente concedeu esta entrevista ao doutorando do NUPELIA (UEM- Maringá), Dilermando Pereira Lima Júnior. De forma muito descontraída, porém profunda, Miguel Rodríguez contou sobre sua formação, suas principais linhas de pesquisa, apontou tendências na Ecologia no século 21, terminando a entrevista com dicas para jovens ecólogos. Confira.Fale um pouco sobre sua formação e seu histórico como ecólogo. Sou graduado em Biologia pela Universidade Autônoma de Madrid, a maior universidade da Espanha em número de alunos. Meu primeiro trabalho científico foi um estudo sobre comportamento de gado em liberdade numa paisagem similar ao cerrado brasileiro. Minha tese de doutorado foi relacionada à comunidade vegetais, em particular, com a estrutura subterrânea das raízes em comunidades de campos com diferentes graus de impacto devido à pastagem. Depois estudei muitos aspectos da Ecologia de Comunidades e da Ecologia de Populações de diversos grupos de organismos como vertebrados, plantas e insetos. Nos últimos cinco anos tenho me interessado por biogeografia e macroecologia.
Quando começou a se interessar por Macroecologia? Meu interesse por Macroecologia surgiu durante a tese de doutorado. Sempre me chamou a atenção a existência de muitos dados acumulados sobre o assunto e como trabalhava com vegetação, me interessava os dados fitossociológicos levantados pelos botânicos. Quando estava terminando meu doutorado, pensei que das meta-análises de muitos trabalhos poderiam surgir padrões interessantes. Daí fui fazer meu segundo doutorado no Laboratório de Bradford Hawkins, onde já havia uma base de dados preparada com essas informações, mas o maior interesse com esses tipos de questões aumentou quando o Brad também começou a se interessar pelo campo da Biogeografia, se tornando meu principal campo de investigação nos últimos anos.
Quando começou a se interessar por Macroecologia? Meu interesse por Macroecologia surgiu durante a tese de doutorado. Sempre me chamou a atenção a existência de muitos dados acumulados sobre o assunto e como trabalhava com vegetação, me interessava os dados fitossociológicos levantados pelos botânicos. Quando estava terminando meu doutorado, pensei que das meta-análises de muitos trabalhos poderiam surgir padrões interessantes. Daí fui fazer meu segundo doutorado no Laboratório de Bradford Hawkins, onde já havia uma base de dados preparada com essas informações, mas o maior interesse com esses tipos de questões aumentou quando o Brad também começou a se interessar pelo campo da Biogeografia, se tornando meu principal campo de investigação nos últimos anos.
Você acredita realmente nos padrões Macroecológicos como importantes fatores atuantes na estruturação de comunidades locais? Uma vez que muitos artigos mostram uma baixa correlação entre a diversidade de variáveis de grandes escalas espaciais. Sim, eu acredito nos padrões. Quando observamos os mapas de riqueza em escalas continentais, creio que esses mapas refletem realidades biológicas. É certo que os mesmos são criticados por mostrarem uma distribuição de espécies que representam mais hipóteses de distribuição do que a distribuição real das espécies, porém estudos mostram que esses mapas são boas explicações da distribuição. Quando observamos os mapas de tamanho corporal das espécies e outros padrões macroecológicos, a mim parecem que esses mapas refletem realidades biológicas. Outra coisa são as análises que fazemos dos dados, que nos mostram correlações entre variáveis climáticas e históricas e nossas interpretações. Se as nossas interpretações são corretas ou não, isso está para ser visto. O fato é que algumas variáveis explicam grande parte da variância, de aspectos como riqueza de espécies em escalas continentais e globais. Podemos encontrar variáveis como evapotranspiração que descreve mais de 70 % de variação da riqueza de espécies de diferentes grupos taxonômicos. Porém, se essa variação é uma resposta biológica dos organismos à quantidade de energia e água, ou se são meras covariações, que escondem outros mecanismos por trás destes padrões, são questões ainda por responder. Na verdade é a grande pergunta. Encontramos correlações com variáveis ambientais, mas correlações não implicam em um mecanismo causal.Sabemos que nosso planeta hoje se encontra numa crise ambiental, com enormes prejuízos à diversidade biológica. Em se tratando de conservação você acha que a Macroecologia pode contribuir com a Biologia da Conservação ou são áreas distintas de pesquisa? Sim. Por um lado o estudo da biogeografia nos ajuda a identificar pontos no globo com grande riqueza de espécies (os hotspots de biodiversidade), com grande número de espécies endêmicas e/ou espécies raras. Claro que tudo isso é uma informação útil para a biologia da conservação. Por outro lado, a macroecologia pode evidenciar como e quais os mecanismos que estão afetando a distribuição das espécies em grandes escalas, por exemplo, avaliando o impacto humano nestas escalas. Nos últimos duzentos anos temos modificado o planeta como nunca antes na história. Isto sem dúvida tem afetado os padrões biogeográficos, portanto, estudos que estão focados em estabelecer até que ponto o impacto humano influencia os gradientes de riqueza de espécies podem ser muito importantes para medidas de conservação.
Quais são os motivos que lhe trazem ao Brasil? O principal motivo é que por aqui há um grupo de pesquisadores como José Alexandre Diniz Filho, Luis Maurício Bini e Paulo De Marco Junior excepcionalmente bom no campo da Macroecologia, com uma capacidade de análise que chama atenção e é reconhecido por pesquisadores da área em todo o mundo. Vir ao Brasil, para mim é uma oportunidade para aprender e fazer análises mais refinadas. E não digo isso por estar no Brasil…
Quais são as principais semelhanças e diferenças entre as universidades espanholas e brasileiras? É uma pergunta interessante. A principal semelhança entre as universidades dos dois países, que tanto professores brasileiros e espanhóis lamentam, é excesso de carga horária dedicada a aulas. Temos que ministrar cerca de 250 horas de aulas por ano aqui e na Espanha. Essa carga horária por ano não parece muito, mas quando comparamos isso a professores universitários dos Estados Unidos, que ministram cerca 40 e no máximo 60 horas de aulas por ano percebemos que estes professores têm muito mais tempo para concentrar-se em suas pesquisas e dedicar-se à orientação de seus alunos. Creio eu que solução para esse problema é permitir que professores com grande interesse por pesquisa se dediquem mais tempo a esse trabalho, sem necessariamente deixar de ensinar. Sou professor e gosto muito de ensinar. As diferenças são referentes a detalhes administrativos e de procedimentos. Só conheço no Brasil a Universidade Federal de Goiás (UFG). Enfim, os sistemas me parecem muito similares.

Como é vista a ciência brasileira na exterior, principalmente a Ecologia? E qual é principal contribuição do Brasil a ciência? Não posso citar uma única contribuição, uma vez que possui uma comunidade científica muito grande, estou falando de Ecólogos. Nomes com José Alexandre Diniz Filho (UFG) e Thomas Michael Lewinsohn (professor da UNICAMP) são muito conhecidos internacionalmente. Creio que os Ecólogos do Brasil tem uma participação muito importante no desenvolvimento da Ecologia. Aliás, me chama atenção a capacidade de análise que têm muitos ecólogos brasileiros. Não sei o porquê de aqui no Brasil haver uma concentração muito grande de Ecólogos que gostam de trabalhar com matemática e estatísticas. Provavelmente, algo no sistema educacional brasileiro enfatiza as matemáticas e estatísticas.
Qual a contribuição que o Brasil poderia dar à ecologia? A contribuição brasileira a Ecologia é enorme. A natureza brasileira é muito especial em escala mundial, a quantidade de biomas, a imensa biodiversidade, não há em outros locais no planeta… Creio que a Espanha não está tão mal em termos de contribuição, mas os países mais ao norte estão trabalhando com parte muito pequena da biodiversidade, poucas espécies condicionadas por um ambiente físico muito restritivo. Nos trópicos os processos ecológicos ocorreram de forma mais acelerada e têm maior importância para o conjunto da vida no planeta. Acredito que a contribuição do Brasil à Ecologia pode ser algo perto do excepcional, num futuro próximo.
Vamos discutir um pouco o método científico. Quando observamos a estruturação do pensamento científico atual há um compromisso com a separação entre imaginação e ciência. Mas, pensamos em grandes cientistas como Dimitri Mendeleiev que vislumbrou o formato da tabela periódica num sonho, ou Albert Einstein, que reza a lenda, pensou na teoria da relatividade tentando responder a pergunta “o que aconteceria comigo se me movesse na velocidade da luz”; ambas questões de caráter muito mais imaginativo. Até que ponto existe a separação entre imaginação e racionalidade na construção do pensamento científico? Não existe separação. Creio que são dois componentes essenciais dentro do método científico que chamamos de popperiano ou também hipotético dedutivo, não estou falando de indutivismo que é outra coisa. O pensamento científico se divide em duas etapas: uma primeira puramente imaginativa, daí o nome hipotético, tem que haver hipóteses, pensar em explicações, a imaginação é livre, pode ter a idéia num sonho, observando o mapa de riqueza de espécies; já a segunda etapa é deduzir predições sobre essas hipóteses que imaginamos e como elas podem ser testadas por meio de um método racional. Imaginação ligada a testes de hipóteses, as duas coisas são juntas não podem ser separadas. O método científico contempla a criatividade e rigor racional na hora de testar as nossas idéias.
Quais são as tendências da Ecologia nesse século que se inicia? Existe uma nova Ecologia sendo forjada? Creio que uma tendência, por um lado negativa, é que estamos assistindo a morte da Ecologia de Comunidades como a conhecemos hoje. A Ecologia de comunidades está se transformando basicamente porque estamos encontrando diversos padrões das comunidades que são muito idiossincráticos. Claro que esses padrões ajudam nos a entender o efeito de diversos fatores como competição, predação e mutualismos. Porém, creio não teremos maiores avanços. Creio que estamos assistindo a emergência de uma nova Ecologia de Comunidades, baseada em redes tróficas e metacomunidades. Creio que a Macroecologia e Biogeografia estão emergindo com grande força como o novo foco de interesse. Porque a junção dessas duas linhas de pesquisa, que na essência é uma, nos permite buscar explicações que até o momento não possuímos, além dos princípios básicos que atuam em grandes escalas.
Qual é a sua dica para jovens ecólogos e pós-graduandos que estão se formando agora e ainda têm poucos artigos publicados? Diria duas coisas… Primeiro publique tudo que podem. Nessa primeira fase de formação de mestrado e doutorado o pesquisador tem que estar ciente que está aprendendo. É importante fazer bons trabalhos, acabá-los e continuar trabalhando. Se você está investigando perguntas importantes, ótimo, mas o mais importante nessa fase é aprender. Dessa forma, fazer trabalhos mais clássicos (ou “conservadores”) e publicá-los é importante. Com avançar da carreira creio que tem que haver uma tendência em prezar a qualidade. É normal que no inicio da carreira o estudante publique muito, mas com maturidade diminua o número de publicações e invista em artigos melhores, mais bem acabados e de maior calibre científico. Com o tempo não importa tanto o número de artigos, mas as questões que se investiga. Resumindo: durante o mestrado e doutorado tente publicar muito em boas revistas internacionais e mais adiante se livrar da obsessão de número artigos e se concentre em idéias importantes para publicar em revistas de ponta.
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29 de novembro de 2008
Repórter Ecológico: entrevista com Philip Fearnside no Cine Gaia
Durante o I Festival de Cinema Ambiental do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Cine Gaia), o pesquisador Philip Fearnside (Inpa) foi entrevistado por Ricardo Hanszmann sobre seu trabalho na Amazônia, que ao longo das últimas décadas vem contribuindo para a conservação da biodiversidade, formação de políticas públicas e valoração dos serviços ambientais, como os ciclos hidrológicos e a manutenção de estoques de carbono.
Philip Fearnside é o líder do Instituto Nacional de Serviços Ambientais da Amazônia (SERVAM), um dos quatro Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) que foram aprovados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o Inpa.
Assista à entrevista com Philip Fearnside [Fonte: Repórter Ecológico, 6'50"].
O Cine Gaia aconteceu entre 31/10 e 9/11 no Rio de Janeiro e exibiu mais de 47 filmes de várias nacionalidades sobre a temática ambiental.
Para mais informações, visite: http://www.cinegaia.org/
Philip Fearnside é o líder do Instituto Nacional de Serviços Ambientais da Amazônia (SERVAM), um dos quatro Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) que foram aprovados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o Inpa.
Assista à entrevista com Philip Fearnside [Fonte: Repórter Ecológico, 6'50"].
O Cine Gaia aconteceu entre 31/10 e 9/11 no Rio de Janeiro e exibiu mais de 47 filmes de várias nacionalidades sobre a temática ambiental.
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