Por Helder Mateus

Os igarapés de terra-firme são a principal fonte de água para os grandes rios amazônicos. No entanto, o conhecimento sobre os peixes nestes pequenos corpos d'água são ainda muito restritos, quando comparado aos grandes rios. Isto acontece principalmente devido à maior dificuldade de acesso destes pequenos riachos, que geralmente estão “escondidos” sob a densa floresta de terra-firme. Por estarem em áreas um pouco mais elevadas, os igarapés não são afetados diretamente pelas cheias e secas dos grandes rios. As mudanças nesses ambientes são mais sutis. Durante fortes chuvas locais, a água que escorre pelo chão da floresta aumenta o volume dos igarapés, revolvendo os substratos ali presentes e deixando a água turva. Frequentemente, os igarapés transbordam e as áreas mais baixas podem ficar inundadas, dependendo da intensidade da chuva e da topografia local. Entretanto, algumas horas após uma forte chuva, é possível notar o volume da água diminuindo, que vai ficando mais transparente e tranquila, até que as condições ali voltem àquelas de antes da chuva.

Com mudanças tão passageiras comparadas ao que acontece nos grandes rios, não era esperado que a fauna de peixes nos igarapés de terra-firme mudasse muito ao longo do ano. Até então, estudos relatavam pouca ou nenhuma diferença na fauna de peixes entre a estação chuvosa e a estação seca nestes ambientes. Contudo, isso não é necessariamente verdade. No meu [Helder] mestrado, desenhei junto com meus orientadores, William Magnusson e Jansen Zuanon, um projeto de amostragens sistemáticas de peixes e características ambientais ao longo de um ano completo (SET de 2005 a AGO de 2006) em 31 igarapés da Reserva Ducke, localizada ao norte de Manaus. A Reserva Ducke é um local de pesquisa permanente do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), um programa do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Os peixes capturados ao longo das amostragens foram identificados em campo, contados e devolvidos aos igarapés. Isso só foi possível porque a reserva tem anos de pesquisa acumulada, permitindo que usássemos um guia de identificação de espécies provisório, mas que está em processo de produção.

Algumas espécies, como o pequeno “rivulídeo” Rivulus kyrovskyi, tiverem três vezes ou mais indivíduos nos igarapés durante as estações secas, comparado ao período chuvoso.
Então surgiu a pergunta: o que acontece com estes peixes durante o período de chuvas? A resposta “deve estar nas poças”, pensamos. Durante o período chuvoso, os igarapés transbordam e a água vinda dos platôs formam conjuntos de poças temporárias, que podem permanecer com água por até 11 meses ao longo do ano. Estudos anteriores mostraram que estas poças mantêm uma diversidade de invertebrados, anfíbios e também de peixes. As espécies de peixes presentes nelas dependem de sua profundidade e do tempo em que permanecem com água. Uma pequena poça de apenas um metro de circunferência pode ter de uma a até 10 espécies diferentes de peixes. Uma possibilidade é que a diminuição do número de peixes nos igarapés no período chuvoso acontece porque algumas espécies muito abundantes “se mudam temporariamente” para estas poças. Segundo esta hipótese, os peixes utilizariam as poças durante o período chuvoso para alimentação e reprodução e, quando as poças começam a secar, os peixes tenderiam a retornar aos igarapés. Um novo estudo está sendo desenvolvido para avaliar esta hipótese. Algumas espécies não utilizam as poças temporárias e as diferenças em abundância ao longo do ano devem estar associadas a outros processos biológicos, como reprodução diferenciada ou pequenas movimentações no próprio canal dos igarapés.
Levantamentos sobre a composição da fauna de peixes são geralmente utilizados na elaboração de planos de manejo em Unidades de Conservação, em Estudos de Impacto Ambiental (EIA), em monitoramentos da integridade ambiental em áreas sob o uso humano, na avaliação de estoques de recursos pesqueiros, entre outros. Com base nos resultados do nosso trabalho, é muito importante enfatizar que estudos sobre peixes de pequenos igarapés amazônicos realizados em diferentes estações do ano não devem ser comparados sem considerar estas diferenças temporais. Assim, espera-se que mudanças sazonais não sejam confundidas com tendências de longo prazo, evitando conclusões equivocadas e a sugestão de opções inadequadas de manejo para a conservação dos peixes amazônicos.
Estes resultados são parte da minha dissertação de mestrado, desenvolvida com recursos da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza e do Programa BECA/IEB.
Eles acabaram de ser publicados online em forma de artigo na revista Freshwater Biology.
Confira!
4 comentários:
Olá Helder, parabens pelo trabalho.
Pergunta: Já que, em geral, a abundância dos peixes diminui na estaçao chuvosa, voce acredita que isso pode ser influenciado pela amostragem, com área e volume potencial maiores para amostrar na chuva? Outra: Como é o turnover de especies ao longo do ano nos igarapés?
Saudaçoes
Fala, Rafael, obrigado.
O que defendemos com este trabalho é que, sim, existe uma expansão da área de vida dos peixes durante o período chuvoso na terra-firme e, por isso, sua detecção no canal principal do igarapé é comprometida. Se não considerarmos as movimentações dos peixes para estas novas áreas durante as chuvas, teremos a tendência de subestimar a diversidade, além de outros possíveis vieses [por exemplo, como algumas espécies utilizam de forma diferenciada as poças e igarapés de acordo com sua fase de vida, dependendo da época de amostragem e do comprimento do ciclo biológico da espécie, conclusões equivocadas quanto à estrutura populacional podem ser tomadas se não considerarmos todo o baixio como sua área de vida]. Estou continuando o estudo, agora amostrando simultaneamente igarapés e seus ambientes alagáveis marginais (poças temporárias e permanentes e alagados conectados aos igarapés), para testar se as tendências gerais observadas para o canal principal se mantêm se considerarmos os dados juntos de abundância das espécies nas poças.
Com relação ao turnover, o que percebemos até agora é que não existe uma substituição entre espécies mais abundantes (para as quais temos maiores probabilidades de detecção). Mesmo aquelas que reduzem muito em abundância nas chuvas, não deixam de ser detectadas neste período no canal do igarapé. As maiores diferenças estão relacionadas a espécies muito pouco abundantes e freqüentes. Olhando no geral, ou seja, para toda a área de estudo, 17 espécies (31% do total) ocorreram em apenas uma das 3 amostragens e 5 (9%) em apenas duas. Estes dois grupos somados representam 1,1% do número total de indivíduos capturados durante o estudo. As demais (+-60%) apareceram nas 3 ocasiões de amostragem. Contrário do que acontece em igarapés mais pŕoximos aos rios, as espécies que apareceram esporadicamente não constituem migrações longitudinais de espécies dos rios, mas sim um artefato de amostragem relacionado à baixa densidade real deles na área. Em geral são espécies encontradas ao longo do continuum, mudando de densidade de acordo com a região estudada.
Abração,
Helder.
Fala Helder, obrigado pelos esclarecimentos.
Permutation!
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