23 de setembro de 2009

Lista vermelha das espécies de fungos ameaçadas de extinção... isso existe no Brasil?

A dificuldade de acesso à informação e a falta de integração entre os pesquisadores limitam a capacidade de planejar a conservação de fungos no Brasil
 
Por Ricardo Braga-Neto

Certo dia eu estava sonhando. Andava numa área densa e úmida, pouca luz chegava ao chão da mata em uma manhã tardia. Eu me lembro bem dos fungos, tão discretos e surpreendentes. Brotavam aqui e acolá orelhas-de-pau e cogumelos, alguns conhecidos, a maioria não. Sem avisar, surge uma figura de barba branca... aproximou-se e perguntou se eu sabia o que tinha acontecido com ele. Como se minha resposta o agradasse, se ofereceu para responder uma pergunta. Eu fiquei instigado, embora inseguro, não sabia muito sobre sua vida, apenas que tinha perdido um monte de coisa muito importante na Amazônia. Sorrindo, franziu a testa ao ouvir minha pergunta. E respondeu com simplicidade: "me diga quem é e onde anda que te direi se está ameaçada". Ele era Alfred Russel Wallace. Eu quis saber quantas espécies de fungos estão ameaçadas de extinção. A resposta, embora profética, tem uma implicação fundamental: é preciso conhecer para conservar. Não apenas conhecer o nome de uma espécie, mas onde ela ocorre também é essencial. Os fungos pertencem a um reino próprio (Fungi), assim como os animais e as plantas, mas são menos estudados no mundo todo. O conhecimento sobre a diversidade de fungos no Brasil está distribuído entre dezenas de herbários em vários estados, mas ele ainda é bastante pequeno. Segundo Thomas Lewinsohn e Paulo Inácio Prado, no Brasil existem umas 14 mil espécies de fungos conhecidas, cerca de 7% das 200 mil estimadas. Em outras palavras, não conhecemos 93% da diversidade de fungos no Brasil! E isso é uma responsabilidade enorme para um país que abriga a maior área de floresta tropical contínua no planeta e outros biomas com forte grau de endemismo. O Ministério do Meio Ambiente fornece listas vermelhas de espécies ameaçadas de extinção para a fauna e para a flora, e não para os fungos, embora eles sejam os maiores responsáveis pela ciclagem de nutrientes em ecossistemas terrestres. Em 2007, durante o V Congresso Brasileiro de Micologia (Recife), decidiu-se criar um grupo de conservação de fungos com o intuito de gerar uma lista vermelha segundo os critérios da IUCN (International Union for Conservation of Nature) com fungos do Brasil. Os critérios não foram pensados diretamente para espécies de fungos, mas são aplicáveis a eles, assim como vários países fizeram na Europa recentemente.

O processo da IUCN para avaliar ameaças
Segundo a IUCN, cada táxon (espécie ou subespécie) é avaliado individualmente contra critérios complementares para determinar uma categoria de risco de extinção. Os critérios são baseados principalmente em informações sobre (1) populações e/ou (2) sobre a área de distribuição geográfica. A avaliação depende fortemente da quantidade de informações disponíveis. Se existem dados adequados para avaliar um táxon, as categorias são ranqueadas em função do grau de ameaça a que um táxon está sujeito. A inclusão de um táxon em uma categoria ocorre quando obedece aos requisitos de pelo menos um dos critérios. Creio que os critérios baseados em populações não são apropriados para a maioria dos fungos, pois pressupõe que o número total de indivíduos de cada táxon seja conhecido. Embora seja possível estimar o tamanho da população ou quantificar diretamente indivíduos de fungos, para avaliar a área de distribuição de uma espécie em escalas regionais pouco importa a definição de um indivíduo. Já os critérios baseados na área de distribuição do táxon permitem avaliar o risco de ameaça dos fungos macroscópicos de modo bastante satisfatório. Eles permitem avaliar o risco de extinção de táxons que, por exemplo, tenham sofrido uma redução drástica na sua distribuição geográfica ou que apresentam uma distribuição bastante restrita. Existem alguns detalhes técnicos, mas a base é essa. É mais fácil obter informações sobre a distribuição geográfica de uma espécie e então avaliar se ela está ou não em risco de extinção. 
 
Por que é importante estudar os fungos? Investir em pesquisas sobre biodiversidade de fungos no Brasil é muito oportuno, pois existe um imenso potencial a se explorar, tanto em serviços ambientais (ciclagem de nutrientes e da água) quanto em biotecnologia. É esperado que o aquecimento global cause uma diminuição no regime de chuvas na Amazônia nas próximas décadas, e os fungos serão os primeiros afetados porque dependem da umidade para se alimentar das folhas e troncos. Essa alteração na atividade dos fungos poderá causar uma redução na capacidade da floresta como um todo de absorver carbono, levando a um balanço negativo entre a fotossíntese e a respiração. A inclusão de fungos em uma lista vermelha tenderá a aumentar a priorização de investimentos nessa linha de pesquisa, tão negligenciada e fundamental. Alô pessoal do CNPq! Segura FAPEAM! Embora recentemente a área da micologia tenha incorporado muitos jovens pesquisadores, os centros de pesquisa em micologia em PE, SP, RS, RN e SC estão organizados de forma relativamente independente, o que dificulta a integração dos dados sobre a distribuição geográfica das espécies que ocorrem no país. Consequentemente, a capacidade dos pesquisadores em oferecer uma avaliação das ameaças à sobrevivência das espécies é bastante limitada.

INCT Herbários Virtuais e CRIA
Partimos do pressuposto que quanto melhor conhecermos a distribuição espacial das espécies mais capacidade teremos para planejar a conservação de fungos no Brasil. Muitos herbários no Brasil, como URM, SP, ICN, HCB, INPA, HUEFS, HURG, UFRN, PACA e FLOR mantêm coleções de fungos macroscópicos representativas. Contudo, enquanto as informações não forem curadas adequadamente e disponibilizadas não será possível saber se estamos perdendo parte do nosso acervo biológico de forma permanente. Mapear a área de distribuição das espécies é relativamente simples, mas é necessário que o conhecimento sobre a ocorrência delas exista e esteja disponível para consulta, algo que não acontece no Brasil. A maioria dos herbários que possuem coleções de fungos macroscópicos está em processo de informatização e os dados não estão disponíveis ainda. Recentemente, foi criado um INCT Virtual da Flora e dos Fungos para atuar na curadoria e digitalização de acervos nacionais, pretendendo vincular tudo com o CRIA, formando assim uma rede de herbários virtualmente. O acesso online e o aumento da integração entre as coleções de fungos promete facilitar a obtenção de informações necessárias para compor as análises da IUCN, um importante instrumento para a conservação dos fungos no Brasil. 

Como um exemplo concreto, essas atividades estão chegando a Manaus. No final de setembro, chegarão ao INPA especialistas em fungos poliporóides da UFPE (Tatiana Gibertoni e Allyne Christina Gomes Silva) e da Universidade de Oslo (Leif Ryvarden). Eles vão ministrar uma disciplina da pós-graduação da Botânica e depois trabalhar na coleção de fungos do herbário INPA. Também está prevista a visita  de um colega da UESC (Jadergudson Pereira) especialista em Xylariaceae. Tomara que seja a fagulha que falta para motivar mais alunos a trabalhar com os fungos na Amazônia.

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