9 de fevereiro de 2009

Guia de Marantáceas da Reserva Ducke e da REBIO Uatumã – Amazônia Central

Novo guia de identificação traz informações sobre biologia, ecologia e evolução de espécies da família Marantácea, que inclui o arumã e várias espécies ornamentais

É inquestionável a importância que o meio ambiente exerce sobre o funcionamento do planeta e a qualidade de vida das pessoas. As florestas amazônicas abrigam uma grande parte dos ecossistemas florestais remanescentes no planeta, representando uma oportunidade única que a humanidade tem para conciliar conservação biológica com desenvolvimento sócio-econômico. Contudo, ao andar na mata, poucas pessoas realmente conseguem enxergar a diversidade presente na Amazônia, principalmente quando se fala em plantas, pois estas possuem diferenças menos nítidas que animais. As árvores chamam atenção por sua imponência, mas a camada rasteira da floresta - o sub-bosque - abriga uma diversidade de espécies, formas e estratégias evolutivas nem sempre óbvias para os visitantes.

Com o intuito de ampliar a percepção da diversidade e de incentivar estudos sobre plantas do sub-bosque, está sendo lançado o
Guia de Marantáceas da Reserva Ducke e da REBIO Uatumã – Amazônia Central, produzido por Flávia R. C. Costa, Fábio Penna Espinelli e Fernando O. G. Figueiredo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Segundo os autores, “nossa intenção com este livro é tirar as espécies do 'tapete verde' e trazê-las para os olhos de quem quiser vê-las.” O guia trata da família Marantaceae, que inclui espécies herbáceas importantes para a economia amazônica, como o arumã, cujas fibras são utilizadas na confecção de tapetes e cestos artesanais por grupos indígenas, além de várias espécies ornamentais.

A dificuldade que muitos estudantes têm em estudar ciências biológicas geralmente está relacionada com diferenças no vocabulário, que além de extenso é muitas vezes mal explicado. No Brasil, existe pouco material de consulta que sirva como uma introdução sucinta aos diferentes grupos biológicos e, ao mesmo tempo, trate de espécies que podem ser encontradas em ambientes próximos. Assim, muitos estudantes não apreciam a diversidade de vários grupos simplesmente por falta de acesso à informação. Segundo Flávia Costa, muitos de seus alunos não podiam imaginar que existissem tantas espécies de ervas na floresta, mas no momento em que as espécies ganharam nomes e suas características únicas foram destacadas, a floresta passou a ser mais povoada do que nunca.

O guia traz informações gerais sobre as marantáceas que ocorrem na Reserva Ducke e na Reserva Biológica do Uatumã, ambas no Amazonas. Ele conta com uma chave de identificação seguida de descrições cuidadosas sobre 31 espécies ou variedades de marantáceas, além de dicas para o reconhecimento em campo. Todas as plantas foram ilustradas por fotografias tal como as encontramos na natureza e também dos detalhes relevantes à identificação, com ênfase nas flores. 

Um grande diferencial é o esforço dos autores em apresentar as informações em linguagem simplificada, evitando jargões científicos sem, contudo, perder precisão. Como é a reprodução, qual seu papel ecológico, como ocorreu a evolução do grupo, qual sua utilidade para o homem e aspectos relacionados à conservação, são alguns dos temas abordados no guia, permitindo que seja usado como referência em cursos básicos de botânica. Ao final do guia, há um glossário ilustrado por Angela Midori que facilita a compreensão de alguns termos técnicos das estruturas das plantas.

Para dar uma olhada no Guia de Marantáceas, folheie as páginas ou clique no link abaixo.


Para baixar o Guia de Marantáceas em PDF, clique aqui [31,7 MB]. 

Por que produzir guias de campo?
Existem inúmeras razões para justificar a urgente necessidade de se investir na criação de guias de campo, desde a importância econômica dos organismos até a possibilidade de levar ao público o encanto de grupos biológicos fascinantes, estimulando a curiosidade que as pessoas têm sobre a natureza. Contudo, além de atingir um público amplo, guias são importantíssimos para facilitar a identificação das espécies que ocorrem na Amazônia, contribuindo para aumentar a qualidade de trabalhos técnicos (p.ex., Estudos de Impacto Ambiental) e de dissertações e teses de pós-graduação. “Reconhecer os organismos é a primeira etapa de qualquer estudo biológico”, afirmam os autores.

Para manejar a extração de recursos florestais de forma não predatória é necessário entender o funcionamento dos ecossistemas, o que exige um conhecimento básico de quais são as espécies de plantas que ocorrem na região. Os ecossistemas florestais na Amazônia são compostos de milhares de espécies desconhecidas pela ciência: estima-se que existam ainda cerca de 50.000 espécies de plantas para serem descritas na região. Além dessa enorme carência no conhecimento sobre a diversidade botânica, as informações acumuladas não estão disponíveis para a maioria das pessoas, pois estão contidas em trabalhos técnicos distribuídos de forma fragmentada em bibliotecas e herbários.

Segundo Mike Hopkins, pesquisador do Inpa, “enquanto outras partes do mundo contam com guias de campo já há algumas gerações, a Amazônia tem ficado para trás nesse aspecto”. Mike assina o prefácio do livro e tem uma vasta experiência em guias de campo, pois ajudou a coordenar o guia mais importante já feito na Amazônia brasileira, a Flora da Reserva Ducke - Guia da identificação das plantas vasculares de uma floresta de terra-firme na Amazônia Central, que se tornou referência no mundo todo.

O Guia de Marantáceas é o quarto de uma série de guias de campo bilíngües (português e inglês) produzidos com o incentivo do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio/MCT), sob os cuidados gráficos da Áttema Design Editorial. A série foi inaugurada pelo "Guia de Sapos da Reserva Ducke" e teve continuidade com o "Guia de Lagartos da Reserva Ducke" e o recém-lançado "Guia de Samambaias e Licófitas da REBIO Uatumã". Espera-se que os guias sirvam de incentivo para trabalhos de pós-graduação, de iniciação científica e de cursos de campo, assim como estimulem a percepção da biodiversidade amazônica em turistas e alunos de escolas do ensino médio. 

Além de disponíveis para download no Portal PPBio (http://ppbio.inpa.gov.br/Port/guias/), versões impressas desses guias foram ou serão distribuídas gratuitamente para escolas, universidades e bibliotecas em todo Brasil. 

Os autores do Guia de Marantáceas ainda não tem recursos para produzir uma versão impressa e por enquanto o guia estará disponível em formato eletrônico (PDF). 

Não deixe de conferir!

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Por Ricardo Braga-Neto e Gabriela Zuquim [Fonte: ULE, 09/02/09]

5 comentários:

Gabi disse...

Parabéns Flávia, Penna e Nando! Espero que o guia sirva como um forte incentivo na escolha de grupos de estudo em ecologia, botânica e qualquer tema relacionado à conservação e meio-ambiente.

Leandro disse...

Show de bola!!

Rodrigo Fadini disse...

Muito bacana! Parabéns aos autores!

Ana L. Tourinho disse...

Lindo!
:)

Fernando disse...

Nando muito legal o guia, parabéns pelo feito inédito aos 3!! E melhor ainda as marantáceas, quão lindas são e me lembro daquela Balanophoraceae. A proposito na pág. 27 acima do cladograma está escrito familia Zingiberales, não seria a Ordem?
Um forte abraço a você e demais autores.
Fernando H. Previdente