11 de novembro de 2009

Turfeiras da Amazônia: um dreno desconhecido de carbono atmosférico e uma fonte em potencial

Por Outi Lähteenoja (adaptado de Lähteenoja et al. 2009)

Em ecossistemas de águas paradas e falta de oxigênio, as folhas e troncos de árvores que caem no chão não decompõem completamente, devido à ação apenas parcial microbiota decompositora. Consequentemente, uma parte da vegetação parcialmente decomposta fica acumulada sobre o solo formando um material chamado turfa. Uma vez que as plantas contêm carbono atmosférico obtido pelo processo de fotossíntese, o acúmulo de turfa reduz o efeito estufa e, a longo prazo, o aquecimento global, e, portanto, é benéfica ao meio ambiente.


A maioria das turfeiras do mundo está localizada em regiões de clima frio, cobertas por florestas temperadas, boreais ou tundras, mas nas últimas décadas, importantes áreas de turfeiras foram descobertas em florestas tropicais do sudeste da Ásia. Estas turfeiras podem ter até 20 metros de profundidade e acumulam turfa em taxas muito altas. Portanto, as turfeiras asiáticas são importantes reservas e drenos de carbono atmosférico (Page et al. 2004). É supreendente que as turfeiras da maior área de floresta tropical do mundo – a Amazônia – sejam praticamente desconhecidas e inexploradas (Schulman et al. 1999).


Em estudo feito por mim junto a colegas das Universidades de Helsinki, Turku e Iquitos (Universidad Nacional de la Amazonía Peruana), exploramos 17 áreas encharcadas na floresta Amazônica Peruana, em Loreto (perto de Iquitos). O objetivo foi determinar se os ecossistemas de águas paradas na Amazônia também são áreas de acúmulo de turfa. A resposta é sim, pois em 16 dos 17 sítios estudados, encontramos um importante acúmulo de turfa, em um dos sítios, essa camada atingiu quase 6 metros de profundidade. Nossos resultados, apresentados na tabela abaixo, mostraram, pela primeira vez, que a formação de turfa é muito comum na Amazônia.


Área de estudo

Profundidade média (em cm) da camada de turfa (mín. e máx entre parênteses)

Taxa média de acumulação de turfa (mm/ano)

Taxa média de acumulação de carbono (g m-2/ano)

Aucayo

5 (0-70)



Buena Vista

210 (0-300)

2.50±0.10


Charo

140 (0-210)

2.56±0.12


Chino

0 (0-30)



Ex Petroleros

110 (50-170)



Fundo Junior

260 (140-420)



Itaya 1

10 (0-30)



Itaya 2

0 (0)



Itaya 3

0 (0-20)



Pebas

55 (40-70)



Primavera

55 (10-150)



Quistococha

245 (0-490)

1.69±0.03

74±15

Riñón

370 (300-390)

2.32±0.12

39±10

San Jorge

250 (0-590)

1.92±0.05

85±30

San Nicolas

145 (0-270)



Santa Rosa

110 (10-150)



Tarapoto

145 (100-180)




Dados extraídos de Lähteenoja et al. (2009).


Um segundo passo foi medir a taxa de acumulação de carbono na camada de turfa destas áreas encharcadas. Com isso, pudemos estimar quanto carbono é removido da atmosfera durante o lento processo de desenvolvimento de uma turfeira. Isso foi possível através da datação do radiocarbono, que é feita com base na proporção entre o C12 e C14. Em nosso estudo, encontramos altas de taxas anuais de acumulação: de 0,94 a 4,88 mm de turfa e 26 a 195 g de carbono.


Porém, a existência de turfeiras é totalmente dependente da presença de água parada e, em condições de seca, tais turfeiras podem se tornar uma fonte de carbono para a atmosfera e contribuir para o aceleramento do aquecimento global e do efeito estufa. Isso aconteceu, por exemplo, em 1997, quando após um período de seca e fogos sucessivos, turfeiras na Indonésia emitiram entre 0,81 e 2,57 gigatoneladas de carbono para a atmosfera, o equivalente a 13 a 40 % da emissão anual mundial proveniente de combustíveis fósseis (Page et al. 2002).


Ainda que as turfeiras da Amazônia estejam relativamente bem conservadas e, portanto, não representem atualmente uma fonte de emissão de carbono, tais sistemas representam um importante dreno e estoque de carbono atmosférico. Segundo a estimativa feita por Schulman e colaboradores (1999), a Amazônia possui 150.000 km2 de turfeiras, uma área de escala semelhante à ocupada por turfeiras na Indonésia. Semelhante também são os diversos fatores que ameaçam a integridade dos ecossistemas amazônicos e indonésios – como, por exemplo, períodos de seca prolongados no futuro.


Considerando-se os atuais impactos da ação humana na Amazônia, aliados à experiência do que ocorreu na Indonésia, fica clara a urgente necessidade de se conservar estes ecossistemas pouco conhecidos.


Esse texto está baseado na seguinte publicação:


Lähteenoja, O, Ruokolainen K, Schulman L, Oinonen M (2009) Amazonian peatlands: an ignored C sink and potential source. Global Change Biology 2009, 15:2311–2320.


Outros trabalhos citados:


Page SE, Siegert F, Rieley JO, Boehm HDV, Jaya A, Limin S (2002) The amount of carbon released from peat and forest fires in Indonesia during 1997. Nature, 420, 61-65.


Page SE, Wüst RAJ, Weiss D, Rieley JO, Shotyk W, Limin SH (2004) A record of Late Pleistocene and Holocene carbon accumulation and climate change from an equatorial peat bog (Kalimantan, Indonesia): implications for past, present and future carbon dynamics. Journal of Quaternary Science, 19, 625-635.


Schulman L, Ruokolainen K, Tuomisto H (1999) Parameters for global ecosystem models. Nature, 399, 535-536.


Agradeço a Gabriela Zuquim pelo incentivo e pela tradução ao português.



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