
Os cientistas sabem há mais de 100 anos que, como animais e plantas, os fungos também são afetados pelas atividades destrutivas da humanidade. Já existem evidências de que as populações de muitas espécies estão em declínio: o impacto da poluição do ar sobre os fungos que formam líquenes é particularmente bem documentado. Embora ainda não haja informações suficientes sobre o estado de conservação de fungos, não há razão para supor que eles sejam menos vulneráveis do que outros grupos de organismos à perda de habitat e às mudanças climáticas.
Contudo, a consciência pública da importância dos fungos é muito baixa, até porque a biodiversidade - a diversidade plena e maravilhosa da vida - ainda é amplamente retratada como "flora e fauna" ou "animais e plantas". Estas descrições simplistas e enganosas podem ser encontradas até em sites de grandes instituições biológicas e sociedades científicas. A biodiversidade é muito mais do que os animais e as plantas. A classificação da vida em cinco reinos, que reconhece os fungos em um reino próprio, tem sido geralmente aceita pelos cientistas pelo menos desde 1970. Com uma estimativa de 1,5 milhão de espécies de fungos no planeta e uma presença em todos os principais ecossistemas de água doce, marinhos e terrestres, o reino dos fungos é megadiverso. Há muito mais fungos do que todas as plantas e os vertebrados juntos. Ignorá-los não é uma opção sensata.

Esta falta de consideração dos fungos foi evidente na Convenção do Rio sobre a Diversidade Biológica (CDB). Notavelmente, a CDB estabeleceu o direito à proteção a todas as formas de vida - e "todas as formas de vida" inclui fungos - mas seu texto classifica a biodiversidade como "animais, plantas e microrganismos", ou seja, dois reinos taxonômicos e uma terceira categoria definida pelo tamanho. Os fungos não pertencem ao reino animal nem ao vegetal, mas eles não incluíram nos cálculos alguns dos maiores indivíduos que vivem na Terra. Uma colônia geneticamente uniforme do cogumelo Armillaria ostoyae na Floresta Nacional de Malheur no estado de Oregon cobre uma área de quase nove quilômetros quadrados, tornando-se muito maior do que a baleia azul ou qualquer uma das grandes sequóias. O termo microrganismo - a terceira categoria - portanto, não parece adequado.

Agora, finalmente, algo está sendo feito para cobrir esta lacuna enorme no mundo da conservação. No dia 6 de agosto de 2010 no Royal Botanic Garden, em Edimburgo, uma reunião especial foi organizada para analisar o problema. Cientistas de 21 países participaram, contando com mensagens de apoio e interesse de muitos outros, totalizando mais de 40 países representados. Além disso, havia mensagens de apoio de uma série de sociedades científicas, ONGs e representantes nacionais do Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico, Técnico e Tecnológico da CDB (os cientistas que aconselham a Convenção do Rio). Depois de uma discussão animada, houve consenso generalizado de que tinha chegado o momento de criar a Sociedade Internacional para a Conservação de Fungos.

As notas seguintes são ideias meramente especulativas e experimentais sobre rumos gerais. Elas estão longe de estar completas, mas já está claro que a sociedade terá que trabalhar em pelo menos quatro áreas: infra-estrutura, educação, ciência e política.
1. Infra-estrutura. A Sociedade terá de começar a angariação de fundos. Pouco pode ser alcançado sem recursos. A sociedade deve promover e apoiar os esforços para estabelecer uma rede de sociedades de conservação de fungos com atuação em diferentes níveis (continental, nacional e local). Em particular, deve envolver os cientistas que trabalham com fungos que formam líquenes, que em muitos aspectos têm mais experiência de conservação do que aqueles que trabalham com outros fungos. Atualmente, a conservação de fungos é apoiada principalmente por ecólogos, taxonomistas e amadores. A sociedade precisa sensibilizar os cientistas que trabalham em laboratório com fungos, por exemplo no campo da genômica, de que os seus conhecimentos e experiência são relevantes para o movimento e que eles também têm a responsabilidade de promover a conservação. A sociedade deve procurar sensibilizar os curadores de coleções de fungos do importante papel destas entidades para a conservação ex situ de fungos. A Sociedade poderá também estabelecer ligações com outras organizações que promovem a conservação de grupos ignorados e pouco valorizados de organismos, de modo que a experiência e os recursos possam ser agrupados.
2. Educação. A Sociedade terá de trabalhar com as sociedades científicas micológicas para sensibilizar o público em geral e os seus governos sobre a importância dos fungos, para promover o ensino da micologia em todos os níveis da educação, e desenvolver sites educativos e outros recursos adequados para este objetivo.
3. Ciência. A Sociedade vai trabalhar para identificar, classificar e divulgar ameaças aos fungos, e para identificar áreas importantes para fungos (coldspots e hotspots) e para organismos associados, e avaliar impactos na sociedade humana que podem ocorrer como resultado do declínio da população e extinções de fungos. A Sociedade promoverá ainda a perspectiva de que, sem levar em conta os fungos, a abordagem de ecossistema para a conservação está severamente comprometida, a ponto de ser inválida. Isto implicará na sensibilização de que os fungos são componentes essenciais dos ecossistemas.
4. Política. A Sociedade desenvolverá políticas e competências políticas, sempre que possível, aprendendo com as experiências das sociedades de conservação. A Sociedade procurará sensibilizar a importância dos fungos entre os Pontos de Foco Nacional da CDB, e também buscará envolver os governos que não são signatários da CDB, tornando-os conscientes da importância da conservação de fungos. A Sociedade procurará levantar o perfil dos fungos, em parte através de uma campanha para incentivar as instituições e as sociedades científicas biológicas a garantir que a linguagem utilizada em seus materiais promocionais reflitam adequadamente a real importância dos fungos. Isto tenderá, por exemplo, a desencorajar o uso da linguagem que causa confusão dos fungos com as plantas (por exemplo, Botânica não inclui Micologia, fungos não são 'plantas inferiores', eles não são parte de uma 'flora', etc.). O uso do termo "biodiversidade" como uma abreviação para se referir a animais e plantas também será desencorajado.

Os desafios para a conservação de fungos são assustadores, mas o assunto é demasiado importante para ser ignorado. Quase que inacreditavelmente, a Sociedade Internacional para a Conservação de Fungos parece ser o primeiro grupo em todo o mundo exclusiva e expressamente dedicado à proteção dos fungos. O estabelecimento foi um acontecimento importante e histórico para o mundo da conservação, mas é apenas um primeiro passo. A sociedade é nova, pequena e inexperiente, e tem um enorme trabalho a fazer. Ela agora precisa de ajuda consistente, entusiasta e generosa, e apoio de outros agentes de conservação e de todos os que entendem a necessidade urgente de proteger os "órfãos do Rio".
