22 de julho de 2009

Conheça mais sobre a Rebio Uatumã

Por Caio Pamplona

Nos anos de ditadura a palavra de ordem era progresso. E nada no mundo capitalista ocidental simboliza mais o progresso do que uma grande obra. Fazer uma grande obra no lugar mais inóspito do mundo então…

Ao bancarem a construção da hidrelétrica de Balbina, os militares queriam pôr seus nomes na História como os líderes que desenvolveram a Amazônia. Entraram… como os responsáveis por um dos maiores impactos à natureza, cuja dimensão e efeitos ainda estão longe de serem plenamente conhecidos.

Apesar de não existir na época legislação que tratasse de licenciamento ambiental ou regras de mitigação de impactos, a comunidade científica e a sociedade civil esbravejaram muito em relação ao projeto da UHE Balbina, a ponto de convencer o governo a criar a maior reserva biológica do Brasil à margem esquerda do recém criado Lago de Balbina, com seus quase trezentos mil hectares de superfície.

As árvores mortas no Lago de Balbina testemunham o impacto gigantesco da obra

Criada oficialmente em 1990, a Reserva Biológica do Uatumã – ou simplesmente Rebio para os moradores do município de Presidente Figueiredo, no Amazonas – passou a sair do papel em 1998 com a assinatura e execução do primeiro termo de compensação ambiental, que livrou a Rebio das amarguras orçamentárias que deixam a maioria das unidades conservação na penúria e abandonadas ao prazer dos caçadores e desmatadores.

Considerando que ainda é impossível medir ou explicar todas as perspectivas de um impacto tão gigantesco, que alagou tanta floresta, transformou metade do grande rio Uatumã em uma poça quente salpicada de ilhas – por volta de três mil, de várias formas e tamanhos, algumas com vários quilômetros quadrados de área – a Rebio Uatumã está longe de compensar os efeitos da construção da UHE Balbina. No entanto, ela é peça fundamental para o que os ecossistemas da região restabeleçam seu equilíbrio, seja ele qual for, protegendo uma amostra importante de floresta (são quase um milhão de hectares protegidos) e nascentes importantes da bacia do Uatumã, integrando a importante iniciativa de conservar a região da calha norte da bacia Amazônica, numa faixa de áreas protegidas que vai desde a Cabeça do Cachorro, no alto rio Negro, até o litoral do Amapá.

A Rebio Uatumã tem uma relação histórica com o povo Waimiri Atroari. Mais do que vizinhos, os Waimiri Atroari já tiveram como terra oficialmente reconhecida parte da área da Rebio. Essa porção de sua terra foi desafetada juntamente com a região onde se instalaria (e está) a Mineração Taboca, maior mina de estanho do Brasil e região rica em elementos estratégicos como tântalo, nióbio e urânio, numa peripécia obscura de Brasília, que cedeu no dia seguinte (literalmente) os direitos minerários do local a uma importante empresa. Por anos, os Waimiri Atroari defenderam a Rebio sozinhos. Hoje eles continuam a participar das ações de monitoramento e vigilância e são parceiros em muitas outras atividades realizadas pela unidade. Diferente de muitos lugares onde a convivência entre UCs e povos indígenas é complicada, a Rebio Uatumã é tida como manancial e fonte de vida pelos índios, da mesma forma que a Rebio conta com o apoio dos Waimiri Atroari para sua proteção.

Milhares de ilhas foram formadas com o represamento do Rio Uatumã

As reservas biológicas são as unidades de conservação mais restritas quanto às atividades permitidas. Apenas trabalhos científicos ou claramente educacionais são autorizados. A Rebio Uatumã, assim como as demais unidades de conservação, não deve ser vista como (e, portanto, tornar-se) um enclave alienígena no território brasileiro. Pelo contrário, deve ser um dínamo de desenvolvimento local ambientalmente responsável.

Trabalhando nesse sentido, a Rebio tem buscado se consolidar como estação de pesquisa, se estruturando fisicamente e fortalecendo a cooperação com as instituições afins. A realização de pesquisas reflete de várias maneiras na gestão da reserva e transforma o conceito – negativo, seja dito - das comunidades locais acerca de uma unidade de conservação tão restritiva. As pesquisas geram uma reação em cadeia de muitas ações, todas positivas para o meio ambiente e para a sociedade. Além da relação direta entre o conhecimento sobre a natureza do local, da diversidade de vida, dos efeitos do barramento do rio Uatumã, entre tantas perguntas que podem ser feitas ali, e a eficiência que terão as ações de manejo, fazem parte dessa reação em cadeia: a possibilidade de uma alternativa de renda aos moradores da região com a contratação de auxiliares de campo nas próprias comunidades, a aplicação e apropriação destes conhecimentos pela sociedade local, a oportunidade de campo a jovens cientistas, dentre muitas outras situações que se desdobram dos projetos de pesquisa em benefícios para as pessoas e para a natureza.

A Rebio possui um sítio RAPELD completo e integra as áreas do
PPBio/INPA. Além disso, por possuir um labirinto de ilhas artificiais, é um laboratório único para estudos relacionados à biogeografia, metapopulações e efeitos da fragmentação da floresta. Os pesquisadores que trabalham na área da Rebio contam com suporte do Programa de Apoio da Rebio que disponibiliza a infraestrutura de bases e acampamentos, barcos e equipamentos, bem como outros insumos necessários às atividades de campo, conforme negociação entre UC e pesquisador.

Para conhecer mais os trabalhos do PPBio na Rebio Uatumã,
visite o site do PPBio.

Para ver mais sobre a Rebio Uatumã,
assista ao vídeo.


Contatos:
Caio Pamplona
Reserva Biológica Uatumã
rebio-uatuma@hotmail.com
Fone/fax: 92 3312 1226

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Um comentário:

Thayná disse...

Caião, o vídeo ficou Fantáááástico!!