20 de abril de 2009

Fungos: muitas espécies, pouco conhecimento e uma enorme importância

Tenho particular apreço pelos fungos, esses magníficos seres vivos, tão onipresentes e esquecidos. São chamados por aí de mofos, bolores, chapéus-de-sapo, cogumelos, orelhas-de-pau, urupês... Eles estão mais para uns bichinhos estranhos, mas por serem lentos, sempre foram tratados juntos com as plantas - seus nomes científicos ainda obedecem ao Código Internacional de Nomenclatura Botânica. Contudo, são muito antigos e únicos, formando um reino inteirinho, bastante subamostrado e desconhecido na Amazônia.

Mas nem tudo é só abandono e solidão. Ano passado, fiz uma breve compilação na plataforma Lattes sobre taxonomia de fungos macroscópicos e percebi uma nítida ascensão de jovens taxonomistas, que vem contribuindo para um crescimento (explosivo) da produção de artigos científicos em taxonomia e sistemática de fungos no Brasil. Mesmo que não estejam vivendo na Amazônia, isso é extraordinário, pois esses taxonomistas serão vitais para estudar a diversidade de fungos em todo o país.

Assim como muitos outros grupos, os fungos tem muitas espécies, algo estimado entre 1,5 e 9,9 milhões, embora se conheça algo em torno de 100.000 espécies. De fato, eles são muito diversos, mas muitas espécies desempenham funções semelhantes nos ecossistemas, formando grupos funcionais, as guildas. Em florestas tropicais, podem ser destacados vários tipos de guildas de fungos, como os decompositores de serrapilheira, endomicorrízicos, saprotróficos de solo, decompositores de madeira, endofíticos, ectomicorrízicos, entomopatogênicos... 

No mestrado, decidi fazer um estudo ecológico sobre um grupo de espécies de fungos de serrapilheira. Eu tinha interesse em saber quais fatores ambientais influenciavam a distribuição das espécies na paisagem e usei os cogumelos como indicativo da presença da espécie no espaço em dois momentos no tempo (estação seca / chuvosa). 

Embora o eminente micólogo alemão Rolf Singer tenha coletado durante alguns anos dentro da Reserva Ducke os mesmos fungos que eu estava interessado, a identificação das espécies e possíveis descrições de novas espécies exige um conhecimento técnico específico, baseado na comparação de características macro e microscópicas com materiais herborizados (secos), com base na consulta de uma literatura vasta e fragmentada. Eu não poderia fazer isso em tempo hábil no mestrado e optei por agrupar em morfoespécies com base apenas no jeitão do fungo e deixei a identificação em banho-maria. 

Na maioria dos casos, os cogumelos são bem diferentes e podem ser reconhecidos. Diferentes cogumelos coletados em locais e momentos diferentes foram agrupados em morfoespécies, esperando que algum interessado identificasse o material e permitisse avaliar se cada morfoespécie representa ou não uma espécie. 

Assim, montei um guia de identificação de fungos de liteira da Reserva Ducke com informações e imagens das morfoespécies. Todo o material coletado foi depositado no herbário INPA e os números de acesso permitem aos interessados solicitar empréstimos de espécimes para identificação (veja o guia no link abaixo).
Depois de alguns anos, eis que surge um interessado disposto a encarar a batalha! Ele é Jair Putzke, um dos micólogos brasileiros mais ativos na última década, autor de alguns livros e grande estimulador da formação de diversos novos talentos nessa área.

Ele não só vai ajudar a identificar e descrever os fungos que encontrei na Reserva Ducke, como devolveu minha motivação para trabalhar com esse grupo tão curioso e importante para o funcionamento das florestas na Amazônia.

Espero que mais jovens estudantes percebam quão estimulante pode ser trabalhar com esses bichinhos tímidos, mas tão presentes em nossas vidas.

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6 comentários:

Ana L. Tourinho disse...

Que legal Saci! Agora senti firmeza e a coisa vai andar!
beijoca
Ana

Davi disse...

Ai.. tenho uma professora que te mataria se ouvisse você chamar fungos de "bichinhos".. rsrs

Adorei o seu trabalho, sempre tive um interesse muito grande em fungos decompositores, e seu potencial biorremediador.. você tem algum material pra indicar sobre o assunto?

Abraços, e parabéns pelo blog!

Saci disse...

Davi, não conta pra ela então!

E obrigado pelo incentivo... eu conheço pouca coisa sobre biorremediação, mas dá uma olhada sobre isso com o pessoal do IBt em São Paulo (Dácio Matheus) e também com um cara dos EUA, Paul Stamets.

Leon disse...

Então... Que legal que tem mais um nas mãos do Jair Putzke. Ele é um grande cara, foi meu professor e agora é um importante colaborador do nosso projeto sobre fungos na Parque Nacional do Iguaçu. Tá nas mãos certas. Grande abraço!

Saci disse...

Verdade Leon, se a maioria dos micólogos fossem tão dispostos quanto o Jair a gente aprenderia mais rápido sobre nossa biodiversidade de fungos.

Eu particularmente acho que precisamos dar um passo além dos laboratórios, buscando gerar uma coordenação em nível nacional que integre os pesquisadores no Brasil, evitando sobreposição de esforços e garatindo uma maior eficiência na geração de informações sobre a identidade e a ocorrência das espécies. Essas informações são essenciais para diversas aplicações acadêmicas e práticas.

matheus gabriel disse...

Você saberia me informar qual a espécie de fungo que está na foto? Por favor