19 de fevereiro de 2009

Lacantunia enigmatica, de onde você veio?

Por Gabriela Zuquim

Os bagres (Siluriformes) são animais interessantes para estudos de evolução pois, são peixes exclusivos de águas doces e, portanto, o parentesco entre espécies atuais em continentes diferentes indicam uma conexão passada, já que o mar é uma barreira intransponível para estes bichos. Os Siluriformes ocorrem em todos os continentes (exceto Antártica) e são muito diversos, atualmente 1 de cada 20 espécies de vertebrados é um Siluriforme.

Recentemente um bagre do sul do México, da região de Chiapas, divisa com a Guatemala, na bacia do Rio Usumacínta, berço de cidades Maias, intrigou cientistas. A espécie foi descrita em 2005 e o nome muito bem escolhido: Lacantunia enigmatica. Lacantunia refere-se ao Rio Lacantún, onde indivíduos usados na descrição foram encontrados. Enigmatica é a parte interessante.

Estudando a filogenia (relação de parentesco entre espécies ou taxa), a espécie aparece relacionada apenas às espécies africanas! Isolada no meio de um clado chamado "BIG AFRICA". Como pode um ancestral ter migrado desde a África até a América sem deixar rastro de fósseis? E porque a espécie só existe em uma pequena região? Essas perguntas estão sem respostas.

Pode, sempre pode, ser um erro do estudo, um tubinho trocado no laboratório, etc. Mas os autores fizeram e refizeram as análises, mudaram os métodos, torturaram os dados e eles não confessaram. Então, vamos pensar que isso aconteceu mesmo, um ancestral africano gerou uma única espécie em um único sistema de rios de água doce no México.

O ancestral pode ter migrado por uma das antigas conexões entre os atuais continentes. É um longo caminho, por conexões de água doce, atravessando a Ásia, entrando na América pela conexão que existiu do Cretáceo ao Mioceno OU via Europa, no Cretáceo ou Paleogeno. Mas como isso pode ter acontecido sem ter deixado nenhum rastro, nenhum fóssil, nada, nenhuma dica! Lapsos no registro fóssil não são surpresas ainda assim, fica uma pulga atrás da orelha.

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Outro evento que pode ter acontecido... Uma águia (ou outro pássaro migrante) atravessou de um continente para o outro com alevinos (filhote de peixe) nos pés... Ou carregou uma concha com os alevinos... ou... Darwin observou algo semelhante em pata de patos (ou de patas), mas não há em ilhas distantes de continentes, como o Hawaii, qualquer evidência de espécies de água doce terem sido trazidas de longas distâncias. Todas espécies de peixes de água doce de ilhas isoladas originaram-se de espécies marinhas.

Enfim... O que realmente aconteceu? Faça sua aposta, escolha a sua hipótese preferida... e vá testar! Assim são os caminhos tortuosos da ciência e da curiosidade humana.

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18 de fevereiro de 2009

Conheça o Parque Nacional do Viruá em Roraima

Por Fabrício Baccaro

O Parque Nacional do Viruá foi criado com o objetivo de preservar os ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica que ocorrem ao sul de Roraima, permitindo também a realização de pesquisas científicas, o desenvolvimento de atividades de educação ambiental e de turismo ecológico. O parque está localizado no município de Caracaraí (RR) e desde 1998 protege mais de 200.000 ha de um tipo de vegetação de transição entre a floresta densa e o cerrado, conhecido como lavrado na região.


O nome do parque vem do igarapé que nasce em seu interior. A área compreende uma vasta superfície praticamente plana, com predomínio de solos arenosos e mal drenados, com grande quantidade de lagoas. Na parte norte existe alguns morros com altitudes modestas, de aproximadamente 300 m. Ao longo da extensão oeste, delimitada pelo Rio Branco, há ocorrência de planícies inundáveis, situação observada também na porção sul, ao longo do Rio Anauá. O clima é quente e úmido na maior parte do ano, mas apresenta uma estação seca entre os meses de setembro a março.

A área do parque abriga espécies características de ambientes alagados, como palmeiras buriti, açaí, jauari e outras como a bacaba e o inajá que ocorrem em áreas de igapó. A fauna apresenta espécies migratórias de aves como o tuiuiú (chamado de passarão no estado de Roraima) e a águia pescadora, aves de ambientes encharcados como a garça-branca e a jaçanã, além de espécies ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, a suçuarana e a anta.

Infra-estrutura para turismo ecológico

O Parque Nacional do Viruá conta com dois alojamentos, com capacidade para 30 pessoas instaladas confortavelmente, cozinha equipada, água encanada e energia elétrica proveniente de gerador. O acesso é feito por via fluvial, pelo Rio Branco, e por via terrestre, pela Rodovia BR-174, a 60 km ao Sul de Caracaraí, denominada de Estrada Perdida. O acesso ao Parque é muito fácil, mesmo para quem não tem carro. Para quem sai de Manaus, é só comprar uma passagem de ônibus para Caracaraí e descer na Vila Petrolina. A estrada de terra que dá acesso ao parque é transitável em qualquer época e fica a menos de 10 km da vila.

A melhor época para visitar o parque é durante o período menos chuvoso (abril a agosto) quando as áreas de vegetação aberta ficam mais secas, o que facilita o deslocamento. Como em qualquer Unidade de Conservação a natureza é quem manda, então para aqueles que têm alergias a picadas de insetos e carrapatos é bom levar os medicamentos e estar com as vacinas obrigatórias (febre amarela e tétano) em dia.

Infra-estrutura de pesquisa no Parque

O PN do Viruá abriga um dos sítios permanentes de pesquisas do Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio/MCT. O sítio de pesquisa é composto por um sistema de trilhas e acampamento de campo que facilitam o acesso e minimizam os custos de pesquisas ecológicas. 

O sistema de trilhas forma uma grade de 5 por 5 km. Ao longo das trilhas leste-oeste, a cada 1 km, existem parcelas permanentes de 40 x 250 m, onde os pesquisadores coletam informações sobre o ambiente e as espécies. A grade de trilhas, além de servir para deslocamento, pode ser utilizada para pesquisar os animais e plantas que não podem ser amostrados nas parcelas. 

Todas as informações coletadas pelos pesquisadores e pela equipe do PPBio, por exemplo sobre os solos, estrutura da vegetação, altitude e inclinação do terreno, são disponibilizadas no Portal PPBio na internet.

No centro da grade de coleta existe um acampamento de apoio, com capacidade para 15 pessoas, equipado com fogareiro a gás, botija, utensílios completos para cozinha, chuveiro e bomba de água movida a gasolina. O telhado do acampamento funciona como um grande funil que direciona a água da chuva para 3 caixas d’água. A bomba a gasolina só é acionada quando a água da chuva não é suficiente.

Integração com a Comunidade do entorno

A falta de pessoal qualificado é um dos principais desafios da região amazônica, portanto, envolver técnicos, pesquisadores locais e a comunidade do entorno do parque com profissionais de outros núcleos de pesquisas é muito importante. 

Essa filosofia faz parte da conduta do PPBio e do ICMBio no Parque Nacional do Viruá, que dão preferência para contratação de brigadistas, mateiros e auxiliares de campo da comunidade local. A relação entre pesquisadores e moradores do entorno do parque proporciona oportunidades de trabalho, geram renda, formam pessoas e estreitam os vínculos entre o parque, a pesquisa científica e a comunidade.

Assista ao vídeo sobre o PPBio no PN do Viruá

O vídeo abaixo mostra uma pequena parte das pesquisas desenvolvidas no parque. Além de plantas (árvores e ervas), cobras, lagartos e sapos mostrados aqui, muitos outros grupos biológicos já foram estudados, como peixes, formigas, ácaros, vespas, abelhas, macacos, grandes mamíferos e aves. 

Para mais informações sobre as pesquisas desenvolvidas no PN do Viruá, visite o Portal do PPBio.


Contatos do Parque Nacional do Viruá:
  • Antonio Lisboa - lisboa.ibama@gmail.com 
  • Beatriz Ribeiro Lisboa - belisboa@gmail.com
Créditos das imagens:
Mapa Parque Nacional do Viruá - Juliana Schietti
Fota da onça-pintada - Luis Claudio Marigo
Foto das pessoas - Julio do Vale

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16 de fevereiro de 2009

Serpentes peçonhentas: a importância de conhecer os riscos para evitar acidentes

No Brasil, existem mais de 50 espécies de serpentes peçonhentas, conhecidas popularmente como jararacas, cascavéis, corais e surucucus. Em comum, essas cobras apresentam glândulas de veneno desenvolvidas que são acopladas com dentes adaptados a inocular o veneno em outros animais, embora a dentição e a capacidade de inoculação possa variar entre as espécies. A função principal desse aparato é matar presas para alimentação, mas acidentes com pessoas podem acontecer esporadicamente. A chance é muito pequena, mas acidentes podem ocorrer em qualquer lugar, até nas cidades, embora quem viage com frequência para o  campo certamente está mais exposto.

O Dr. Paulo Sérgio Bernarde (Universidade Federal do Acre) compilou em um capítulo informações sobre acidentes ofídicos, que permite conhecer e identificar as espécies de serpentes peçonhentas que ocorrem na Amazônia. O capítulo está disponível abaixo e conta com fotos sobre a maioria das espécies, além de informações básicas sobre primeiros socorros, como evitar os acidentes, os diferentes sintomas de envenenamento e como tratar as vítimas. Ao final, uma extensa lista de referências bibliográficas permite aprofundar-se no assunto. Clique na imagem abaixo para ler o capítulo de Acidentes Ofídicos.


No Inpa, existem casos relativamente recentes de pessoas que foram picadas por jararacas (a espécie mais abundante e responsável pela maioria dos acidentes), sendo muito importante conhecer os grupos de espécies e suas diferenças para saber como proceder para minimizar os danos. Entretanto, obviamente a melhor estratégia é evitar os acidentes, pois as respostas ao veneno variam muito entre as pessoas e nem sempre existirá um hospital por perto. Em todo caso, é muito importante andar calçado com botas ou perneiras e, principalmente, evitar andar sozinho na mata, porque a situação pode complicar.

Muito obrigado ao Paulo pela gentileza de permitir a divulgação desse assunto importante para quem coloca as canelas à prova!

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15 de fevereiro de 2009

Gaudí e a Biologia

O arquiteto é inquestionavelmente um gênio. Mas de onde saiu tanta criatividade?

Por Gabriela Zuquim

Obras geniais da arquitetura ou engenharia podem ser um pouco entediantes aos menos entusiastas dos feitos da humanidade moderna. Eu confesso que fiquei entediada com o entra-e-sai das igrejas da região de Ouro Preto e Mariana... as cidades são lindas, mas o que eu queria mesmo era correr para uma cachoeira. Mas com Gaudí isso não acontece. Em suas obras, começam a surgir, mais ou menos óbvios, elementos da natureza.


Ao longo da história, o ser humano foi pouco a pouco se distanciando de uma vida dependente de paisagem natural. Mas o movimento contrário também acontece e entrar em uma obra de Gaudí remonta a sensação de estar mergulhando em uma floresta, no mar ou em uma savana.

Antoní Gaudí foi um arquiteto catalão que possuía uma linguagem pessoal. No início, suas obras eram góticas, bonitas, mas não foram estas que o consagraram. O que faz Gaudí estar em um blog de biólogos é sua leitura e representação da natureza.

O Templo Expiatório da Sagrada Família é a obra mais famosa. O projeto ainda inacabado não nos deixa dúvidas de que esse homem tinha uma mente ousada. A partir dos 31 anos de idade ele passou a dedicar-se exclusivamente à construção do templo e assim se passaram os seguintes 40 anos, até a sua morte por atropelamento. Nem falta de dinheiro e nem a perspectiva de nunca ver a obra pronta o fizeram menos obcecado. Gaudí gastou tudo o que tinha em um canteiro de obras que acabou tornando-se sua casa quando nem mesmo o aluguel poderia ser custeado. O templo está em construção há 126 anos, mas ainda falta muito para acabar. E então, a natureza... a fachada da paixão lembra uma gigantesca Samaúma (Ceiba petandra), árvore que se destaca nas paisagens de várzeas amazônicas por seu porte e pelas longas sapopemas (projeções do tronco que auxiliam a sustentação de uma árvore de 45 m sobre raízes superficiais e um solo mole). Por dentro da igreja, podemos nos sentir dentro de uma floresta, pois as colunas se ramificam como troncos de árvores. A textura do teto imita o dossel, o teto da floresta formado pelas folhas e ramos das árvores.


Da floresta para o mar, a Casa Batlló. A casa foi reformada por Gaudí entre 1904 e 1906, e é o auge da expressão de sua fase naturalista. Com liberdade total de estilo, muita criatividade alimentada pela diversidade de formas vivas que agradecemos todos os dias a seleção natural, e um bom dinheiro da família Batlló, Gaudí criou o que é, em minha opinião, a mais desconcertante obra. Um sentimento de alegria brota ao entrar, não muito diferente de entrar no mar, num dia de calor. O elemento água está sempre presente. Os exemplos são infindáveis. O olhar dele sobre a natureza e a profunda compreensão do significado que as formas dela têm sobre o ser humano é o toque de gênio que existe devido à sensibilidade de Gaudí.

O Parque Güell, foi construído originalmente para ser um condomínio fechado de milionários, mas não chegou a tal objetivo por falta de dinheiro para a continuidade da obra. Gaudí não era apenas sensitivo e amante das formas da natureza, ele era um pesquisador aficionado pela fauna e flora. Estudando anatomia, entrou em contato com as obras do naturalista alemão Ernst Haeckel. Seus desenhos contribuíram com certo rigor científico nas obras de Gaudí e um enorme nível de detalhamento de formas da natureza. Tudo filtrado pelo olhar de Gaudí e expresso em mosaicos magníficos.


Surpreendente mesmo foi o encontro com uma pomba-gaudí! Uma inegável evidência de que Lamark estava certo (aos desavisados, isso foi apenas uma licença poética!). Moradora fiel e predadora de pipocas Gaudianas, acabou desenvolvendo uma penagem colorida para se camuflar nos mosaicos do seu habitat natural. Se couber um parênteses ao ceticismo de pesquisadora, visitar as obras do Gaudí foi uma experiência espiritual. Há magia em toda parte. E a natureza é o pano de fundo.

Talvez tenham faltado informações básicas sobre a bibliografia do Gaudí. Mas a verdade é que seu legado é atemporal e a expressão do sentimento de busca pelo natural presente em suas obras é universal. Fatos são apenas fatos.

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14 de fevereiro de 2009

As florestas da Amazônia funcionam como fontes ou drenos de carbono?

Por Ricardo Braga-Neto

Em 11/02/09, Luiz Bento do blog Discutindo Ecologia publicou o post “Amazônia NÃO é o "pulmão" do mundo. Ou pode ser?” sobre a premissa da neutralidade na produtividade primária líquida em florestas antigas, levantando a questão de o bioma amazônico funcionar como uma fonte ou dreno de CO2. A argumentação foi baseada em um artigo recente (Luyssaert et al. 2008) que realizou uma meta-análise de centenas de trabalhos publicados, evidenciando que a maioria das florestas antigas do hemisfério Norte apresentou produtividade primária líquida positiva.


A produtividade primária líquida (PPL) é uma medida do funcionamento da floresta, derivada do balanço entre a emissão de carbono pela respiração e a absorção de carbono pela fotossíntese. No nível do ecossistema, se a PPL é positiva, a fixação de carbono é maior que a perda de carbono - a floresta engorda, ou seja, aumenta em biomassa. Por outro lado, a floresta perde peso (emite mais CO2 que absorve) se a PPL for negativa. Embora o número de trabalhos compilados no artigo citado seja elevado (mais de 500), as análises apresentam um forte viés geográfico para florestas boreais (30%) e temperadas (70%), pois os trabalhos referentes a florestas tropicais não foram considerados. Essa limitação foi reconhecida, mas o fato é que existem mais informações disponíveis para alimentar a discussão.

O que se sabe sobre o funcionamento da Amazônia?
O funcionamento das florestas tropicais é muito importante para se quantificar a produtividade primária líquida dos ecossistemas terrestres no planeta, pois elas contribuem com 1/3 do montante total, cerca de 3 vezes mais que as florestas boreais e temperadas. Os cálculos da quantidade de carbono presente em florestas são baseados na conversão de dados de inventários florestais em estimativas de biomassa (a quantidade de carbono é proporcional à metade do peso seco), usando equações alométricas que são obtidas por métodos de regressão a partir de dados empíricos. Quanto mais indivíduos e quanto maiores estes forem, maior é a biomassa presente em uma determinada área. É importante lembrar que essas estimativas são referentes à biomassa acima do solo, pois existem dificuldades práticas de se quantificar a biomassa contida nas raízes. Além disso, embora a densidade da madeira não seja igual para todas as espécies, ainda existem poucos dados sobre as espécies de árvores na Amazônia e em geral as diferenças não são consideradas nos cálculos. Isso pode ter grande implicação sobre as estimativas de estoque e fluxo de carbono, como este trabalho evidencia, mas essa questão não será considerada aqui.

Embora exista uma quantidade de dados razoável para se avaliar a dinâmica das florestas na Amazônia, as estimativas do estoque de carbono variam muito, principalmente devido a diferenças metodológicas na amostragem dos dados, diferenças nas medições de diâmetro (referente ao tamanho do indivíduo), ao tipo de equação alométrica usada e à pequena cobertura espacial, geralmente insuficiente para se obter generalizações de uma determinada área. Esses são os principais problemas que acarretam em incertezas na extrapolação das estimativas locais para regiões maiores, dificultando a compreensão da dinâmica do carbono no bioma amazônico.

Em 2004, Timothy Baker e mais de uma dezena de colaboradores avaliaram a maioria das evidências (até então) relacionadas com a dinâmica da biomassa em florestas neotropicais, concluindo que essas florestas estão absorvendo CO2 consistentemente, em uma ordem de grandeza de 0,61 ± 0,22 MgC/ha ao ano. Essa tendência deve ser encarada como uma hipótese, já que a cobertura espacial dos dados é bastante limitada. Entretanto, nos últimos anos uma crescente quantidade de informações, obtidas em diferentes locais e sob diferentes abordagens, está sendo acumulada na Amazônia, permitindo avaliar com mais segurança a dinâmica de suas florestas. Muitos resultados recentes estão corroborando essa tendência de as florestas amazônicas estarem engordando e absorvendo carbono, mas um trabalho feito na Reserva Ducke merece maior atenção.

Aproveitando o sistema de amostragem instalado na Reserva Ducke pelo PPBio/MCT e pelo PELD/CNPq, Carolina Castilho estudou a variação na biomassa de árvores e palmeiras em função das características do solo e da altitude em 72 parcelas permanentes de 1 ha, distribuídas regularmente em 64 km2 (8 x 8 km). Essa abordagem amostral permite reduzir um dos problemas citados acima (pequena cobertura espacial) e favorece a extrapolação dos resultados para uma área maior, pois os resultados são mais representativos das condições encontradas na Amazônia Central. Mas quais foram os principais resultados desse estudo? A figura ao lado se refere à frequência de distribuição de biomassa de árvores nas 72 parcelas da Ducke. Claramente pode se perceber que existe uma grande variação na biomassa nas parcelas, seguindo uma distribuição normal. Entretanto, um grande diferencial desse estudo está relacionado com o desenho das parcelas, que segue a curva de nível do terreno, minimizando a variação nas características do solo e da altitude em cada unidade amostral e permitindo a comparação adequada da biomassa observada nas 72 parcelas amostradas.

Assim, foi possível testar a influência das características do solo e da altitude (que na Amazônia Central estão fortemente correlacionadas) sobre os estoques de biomassa presente nas árvores e nas palmeiras. Considerando uma medida no tempo, foi possível perceber que as árvores têm maior biomassa em solos argilosos, que estão localizados nas áreas mais elevadas, enquanto que as palmeiras têm maior biomassa em solos arenosos, que estão nas áreas baixas. Depois de 2 anos, novas medidas de diâmetro das árvores e palmeiras foram obtidas e foi possível perbecer que a floresta como um todo está engordando, acumulando biomassa e absorvendo CO2 da atmosfera. Contudo, como a figura ao lado evidencia, esse acúmulo não é homogêneo: as áreas altas (com alto teor de argila, clay em inglês) tem uma taxa de absorção de carbono maior que as áreas baixas (em solos arenosos).

Para onde estão direcionados os esforços na Amazônia brasileira?
Ainda não se sabe porque as florestas amazônicas estão aumentando em biomassa, mas é certo que esse processo têm grandes implicações econômicas, via regulação dos mecanismos de REDD (Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação), que serão discutidos na COP15 em Copenhagem em dezembro de 2009. É possível que a absorção de carbono pelas florestas da Amazônia esteja associada a respostas a distúrbios históricos decorrentes do último período glacial ou ao aumento recente da concentração de CO2 na atmosfera. Porém, a abrangência e efetividade da absorção de CO2 pelas florestas só serão confirmadas através do acúmulo de informações obtidas em parcelas permanentes, com grande cobertura geográfica.

Felizmente, dois programas de pesquisa vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), são determinantes desse iminente progresso: o PPBio (Programa de Pesquisa em Biodiversidade) e o LBA (Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia). O primeiro é responsável pela replicação do sistema usado na Reserva Ducke em diversos sítios da Amazônia - atualmente já existem medidas do estoque de carbono pelo menos para a Reserva Biológica do Uatumã (AM), Parque Nacional do Viruá (RR) e Estação Ecológica de Maracá (RR) e atividades complementares estão em andamento em outros locais da região amazônica no Pará, Amapá, Acre e Rondônia. O segundo programa do MCT estuda o funcionamento climatológico, biogeoquímico e hidrológico da Amazônia, sendo responsável também por estudos sobre o impacto das mudanças do uso da terra em escala regional e global. A integração entre os resultados desses dois programas promete revolucionar o que sabemos sobre o funcionamento das florestas amazônicas. O mais difícil vai ser transformar esse conhecimento científico em políticas públicas, mas é certo que ele poderá ser um diferencial nas negociações da remuneração pelos serviços ambientais prestados pela maior área contínua de floresta tropical do planeta.
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