6 de dezembro de 2008

PNUMA lança Atlas sobre carbono e biodiversidade em Poznan

Por Ricardo Braga-Neto

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou ontem (5/12/08) em Poznan um Atlas sobre carbono e biodiversidade, com foco no desmatamento em países tropicais. Além de possuir uma série de mapas indicando regiões do planeta que compartilham grande densidade de carbono com hotspots de biodiversidade, o documento sugere como a redução de emissões de gases, causadas por desmatamento, pode ajudar não só a combater o aquecimento global, mas também a conservar a biodiversidade. O atlas traz um panorama mundial, mas examina alguns países em regiões tropicais para ilustrar diferentes realidades sócio-ambientais e políticas. A expectativa é de que o atlas ofereça um exemplo positivo de como orientar governos nas decisões sobre onde proteger as florestas. Contudo, efetivamente, qual é a aplicação desses resultados na formação de políticas públicas para a Amazônia?


O que está em discussão desde a COP 13 (Bali, 2007) é a criação de um mecanismo financeiro para estimular atividades de mitigação das causas das mudanças climáticas, baseado na conservação de biodiversidade e dos processos ecossistêmicos (desmatamento evitado), no manejo sustentável de florestas e no incremento dos estoques de carbono. No mapa acima, é possível ver que a densidade de Carbono (em marrom) é maior nos trópicos e em altas latitudes no hemisfério Norte, enquanto que a biodiversidade (em verde) é maior em baixas latitudes. Estima-se que o desmatamento esteja associado com 20% das emissões antrópicas mundiais e alguns países tropicais tem grande responsabilidade sobre essas emissões, dentre eles obviamente o Brasil (hoje, cerca de 75% dos gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil provém de desmatamentos, a maioria na Amazônia).

A idéia é muito interessante: acoplar a proteção de áreas destinadas à conservação da biodiversidade com a proteção do Carbono estocado em sua biomassa. Contudo, priorizar exclusivamente áreas que conciliam alta densidade de Carbono e de espécies pode ser perigoso para a biodiversidade, pois não existe uma relação direta entre biomassa (estoques de carbono) e o número de espécies em um ecossistema. Existem tanto florestas pobres em espécies mas gordas em biomassa, quanto florestas riquíssimas em espécies, mas com baixa densidade de Carbono. Mais grave ainda, como nos trópicos a biodiversidade é pouco conhecida, o atlas subestima a importância de áreas imensas. Não é novidade que o conhecimento científico sobre a diversidade de espécies na bacia amazônica está altamente concentrado ao redor de grandes cidades, como Manaus e Belém. Isso foi bem caracterizado por dois pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Bruce Nelson [Nature] no início da década de 90 e Mike Hopkins [Journal of Biogeography] em 2007. Segundo Hopkins, na Amazônia ainda esperamos encontrar cerca de 50.000 novas espécies de plantas. 50.000 espécies!

Este gráfico sobre a região Neotropical indica o total de Carbono ou total em área particionados por regiões que tem grande concentração de Carbono e/ou de biodiversidade. Note que a proporção total dos dois parâmetros avaliados em que existe congruência entre alta densidade de Carbono e de espécies é muito baixa, o que reforça o temor em usar esse raciocínio sem outros critérios complementares para orientar políticas públicas. Para quantificar a biodiversidade em escala global, o PNUMA se baseou em poucas fontes [Hotspots da Conservation International, Ecorregiões da WWF, Birdlife International Endemic Bird Areas (EBAs), WWF/IUCN Centres of Plant Diversity (CPDs) e Amphibian Diversity Areas]. Nos mapas do atlas, as áreas com alta biodiversidade são aquelas em que três ou mais dessas fontes confirmaram esse padrão. Segundo esse critério, a Amazônia não tem grande biodiversidade, pois apenas duas das fontes possuem informações sobre a região, o que obviamente não reflete a realidade.

Acoplar a redução das emissões do desmatamento com retorno para a conservação biológica é um processo que renderá frutos suculentos em um futuro próximo. Porém, generalizar a relação do Carbono com a biodiversidade sem existir informações suficientes sobre QUAIS são e ONDE estão as espécies, pode ser prematuro. Como o processo de acúmulo de conhecimento da biodiversidade é lento e depende do número de pessoas envolvidas, é imprescindível que sejam direcionados recursos com urgência para atrair e fixar pesquisadores na Amazônia. De outro modo, nunca existirão dados disponíveis para subsidiar políticas públicas para o meio ambiente. É bom acordar, pois no mercado de Carbono, temos muito a ganhar.

5 comentários:

Ralph disse...

Grande Saci,
Parabéns pelo espaço, está muito legal!
Vejo como favorável a iniciativa do PNUMA. Porém acho que não devemos ter essa visão científica de que eles estão querendo relacionar estoques de carbono e biodiversidade. Eles não querem relacionar nada, somos nós é que gostamos dessas coisas... O objetivo deles foi simplestmente plotar as duas informações juntas em um mapa, para que os planejadores possam se embasar para a tomada de decisões fundamentada nesses dois temas que tão falados na atualidade: carbono e biodiversidade. Grande abraço a todos! Ralph

Saci disse...

Ralph! Fico feliz que tenha gostado do espaço, devagar ele vai sendo consolidado... concordo que a iniciativa do PNUMA pode ser favorável, mas para um caboclo desavisado isso pode ser perigoso de fato. Essa tentativa aplicada de relacionar estoques de carbono com a biodiversidade não tem raízes acadêmicas tão sólidas assim. Na Amazônia, as unidades de conservação federais e estaduais, juntamente com as terras indígenas, abrangem alguma representatividade geográfica em termos de biodiversidade e estoques de carbono. Mas isso não significa que tenhamos (enquanto sociedade) conhecimento sobre a biodiversidade de bacia amazônica. Em teoria, teoria e prática são a mesma coisa, mas na prática não. A maioria das unidades de conservação não tem sequer plano de manejo. Essa recomendação do PNUMA deve ser usada com inteligência, pois ela pode endossar a necessidade de aumentar a fixação de pesquisadores na região visando suprimir essa carência. Saci

Ralph disse...

Sassá, entendo sua preocupação, pois os "decision makers", podem usar o atlas para priorizar as áreas com alta biomassa e diversidade, em detrimento de uma série de ecossistemas com alta diversidade e menor biomassa, como as campinas, campinaranas e outras fitofisionomias de campos e floresta aberta (no caso da Amazônia). Poderia ser criado um vício de conservar áreas com alta biomassa o que acarretaria em uma repetição no padrão dos ecossistemas a serem priorizados para conservação, o que não seria nada interessante considerando o velho pré-requisito da representatividade.
Cabe ressaltar mais uma vez, que a idéia do mapa não é relacionar carbono e biodiversidade, isso seria uma tolice, conforme vc mesmo disse:” não teria raízes acadêmicas”. Seu exemplo no texto das áreas tropicais e temperadas ilustra bem esta questão.
- “These maps illustrate how combining spatial datasets can help to identify areas where the opportunities for carbon and biodiversity benefits coincide.” -
Ao plotar dois planos de informações em um mapa a idéia é, somente, a visualização simultânea, eles não querem relacionar nada. Somos nós, acadêmicos, que temos esse vício das relações, correlações, regressões, etc. Precisamos tomar cuidado com isso também, pois nem sempre nosso treinamento estatístico se faz necessário.
Apesar dos dados de biodiversidade ainda não serem como gostaríamos, se essa informação é a melhor que temos hoje, temos de usá-la, afinal imagine o esforço despendido para chegarmos nesse nível. Essa é a lógica da informação espacial, à medida que ela vai sendo aprimorada, vai sendo também atualizada. Se não usarmos a informação que temos sobre biodiversidade em macroescala a espera de melhorias de amostragem, nunca a usaremos, pois esta informação depende de esforço amostral e está sendo constantemente atualizada. Nesse momento, certamente qualquer um de nós tem algum colega no campo contribuindo para sua atualização, mas ela sempre será de alguma forma deficitária.
Todavia, caberia no documento um tópico de recomendações, esclarecendo a importância de conservar áreas com menor biomassa; e também de considerar as limitações dos dados de biodiversidade, mostrando que não necessariamente eles demonstram a realidade de campo, uma vez que existem deficiências na amostragem, acarretando super e subestimativas. Grande Abraço, Ralph.

Saci disse...

Ralph, a verdade é que existe um conjunto muito maior de dados sobre a distribuição da biodiversidade na Amazônia que não foi usado no Atlas do PNUMA. Dentre estes, estão os dados do RADAM (que o Hans ter Steege usou, exemplo 1, exemplo 2) e os que o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) está gerando (http://ppbio.inpa.gov.br/Port/sitioscoleta/) em diversos estados da Amazônia.

Porém, é certo que os dados existentes não são suficientes. Uma estratégia para reduzir essa carência pode ser a INTEGRAÇÃO dos Institutos e Programas de Pesquisa Federais (como o Inpa, o PPBio e o LBA) com Institutos Federais e Estaduais de Planejamento da Conservação (como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade [ICMBio] e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas [SDS-AM]). Isso ajudaria a focar mais nas demandas peculiares de cada unidade de conservação, sem perder de vista a integração dos resultados em escalas maiores.

Creio que o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) está se consolidando com êxito crescente, mas é urgentemente necessário implementar e monitorar a maioria das unidades de conservação na região. É preciso integrar as ações na Amazônia para fazer mais em menos tempo, atuando com foco em escalas locais (onde as coisas efetivamente acontecem), mas sem prescindir da integração em escalas maiores, que tem grande importância no contexto das mudanças climáticas, como sugerido pelo Atlas do PNUMA. Grande abraço, Saci

Saci disse...

Ola, esse assunto rendeu uma materia no Caderno de Meio Ambiente do Jornal Amazonas em Tempo (14/12/2008). Veja aqui.